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Semana de Trabalhos do Mecila em São Paulo reúne pesquisadores para discutir próximos passos do Centro

 

Reunidos na sede do Mecila em São Paulo para a realização de uma ‘Semana de Trabalho’, que ocorreu entre 18 e 22 de março, as pesquisadoras e pesquisadores do Centro definiram as diretrizes para o desenvolvimento de suas atividades futuras.

Além da retomada e avaliação de atividades já realizadas, como o Workshop “Conviviality in Unequal Societies”, ocorrido em La Plata em novembro de 2018, a semana serviu como um momento de organização e autorreflexão sobre a estrutura do Centro, quais seus objetivos e como alcançá-los.

Divididos em seis grupos distintos, as pesquisadoras e pesquisadores discutiram aspectos como o programa de pesquisa do Mecila e o perfil do Centro, o uso de instrumentos de divulgação dos trabalhos, políticas de publicação de artigos, diretrizes para o código de conduta, dentre outros temas.

Os cinco dias de evento envolveram o planejamento de atividade e discussão de produções das pesquisadoras e pesquisadores do centro
Uma das seções dos grupo de trabalho. Da esquerda para a direita Sérgio Costa, Astrid Ulloa, Maya Manzi, Peter Schulze, Christoph Müller

Sentidos diversos do conhecimento

A reunião também permitiu momentos de debate sobre as pesquisas em curso.  Na mesa redonda Conhecimentos para a Conviviality [Knowledges for Conviviality] os trabalhos tiveram como eixo a questão da variedade de formas e práticas de conhecimento e como sua produção e circulação podem ser pensadas à luz de assimetrias de poder.

A questão das mudanças climáticas, geralmente debatida a partir das ciências naturais, foi abordada sob uma perspectiva cultural por Astrid Ulloa, do departamento de Geografia da Universidad Nacional de Colombia. A pesquisadora apontou como o discurso científico geralmente ignora formas de conhecimento produzidas em espaços não-acadêmicos e por outros sujeitos, em especial mulheres indígenas.

O próprio contexto acadêmico enquanto espaço de convívios e de formação profissional também foi tomado como objeto de investigação por Maya Manzi. Junto de um grupo de geógrafos de contextos socioculturais bastante diversos, a pesquisadora de pós-doutorado do Mecila e sua equipe buscam compreender o equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho de geógrafos em formação acompanhando suas trajetórias de vida. Os 10 primeiros anos de pesquisa mostram como gênero, origem geográfica, necessidade de cuidar de outros, por exemplo, afetam as carreiras destas e destes profissionais. 

Da esquerda para a direita as pesquisadoras Laura Flamand e Alejandra Mailhe

As diferentes correntes do pluralismo cultural nos Estados unidos foram o tema trazido por Daniel Cefaï, da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais. Em seus estudos, o pesquisador identificou que no início do século 20, as primeiras expressões do pluralismo estadunidense excluíam não-brancos e indígenas. Somente a partir dos anos 1940 não-brancos passariam a ser considerados no âmbito do pluralismo com a disseminação da metáfora  e ideia caldeirão de raças e culturas (melting pot).

Na última seção, a ideia de “excessive understanding” do antropólogo indiano Arjun Appadurai foi trazida por Fernando Baldraia, pesquisador de pós-doutorado. Baldraia questionou a ausência de reflexão sobre o papel da branquitude como elemento de construção do conhecimento e como isso pode afetar o ambiente do próprio Mecila, abrindo um debate com o grupo sobre os limites para a superação de viéses na produção de conhecimento.

 

Conviviality: pensando possibilidades

Historiadoras trouxeram novos desafios teóricos na mesa Hi(e)stórias Conviviais [Convivial Hi(S)tories]. Aqui, duas questões orientaram os debates: qual poderia ser o lugar das pesquisas sobre convivialidade na historiografia da América Latina e como a abordagem proposta pelo Mecila desafia as historiografias baseadas em histórias nacionais?

A ideia de conviviality é capaz de atravessar fronteiras nacionais e geográficas, defendeu a pesquisadora de pós-doutorado Luciane Scarato. Para ela, o conceito é capaz de superar amarras analíticas e servir como elemento libertador para a historiografia  brasileira e latino-americana.

Refletindo sobre os potenciais do conceito, Raquel Gil Montero, do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (Conicet) nota que mesmo no sistema colonial a conviviality pode ser pensada como uma negociação contínua, o que a aproxima de noções como a história vista de baixo [History from below] ou história dos povos sem história [History-less people] . Essa perspectiva é mobilizada pela pesquisadora para pensar o contexto dos indígenas na colonização andina, argumentando que o sistema colonial pode ser lido não só pelas lentes da coerção e violência, mas também das práticas de negociação

Partindo da tensão entre coesão e conflito, Alejandre Mailhe, da Universidade Nacional de La Plata (UNLP) trouxe o debate sobre as construções diversas da ideia de mestizaje, quais seus contextos de surgimento e como elas oferecem espaços diversos para a convivialidade.

Um evento especial também compôs a semana de trabalhos do centro, a exibição do filme Querência, do diretor Helvécio Martins Jr. Selecionada para o Festival internacional de Cinema de Berlim deste ano, a obra é fruto da imersão do diretor no sertão mineiro e em seu convívio com as pessoas da região por mais de dois anos.

Tendo por fio condutor a história do vaqueiro Marcelo, que busca reconstruir sua vida como narrador de rodeios após um grande assalto que leva suas cabeças de gado, Querência é um retrato dos modos de vida e das relações desta parte do Brasil rural, valendo-se das histórias de vida reais de atores não profissionais para compor sua narrativa.