USP
4 de setembro de 2026, às 18h
FFLCH-USP – Prédio de Filosofia e Ciências Sociais, Auditório 08
Memórias da Fazenda Brasilis: ou como recusei submeter minha criação ao regime da racialidade
Nesta Aula Magna, a artista muSa Michelle Mattiuzzi apresenta uma reflexão sobre sua trajetória artística a partir da noção de recusa (practicing refusal), formulada por Tina Campt, em diálogo com as contribuições de Denise Ferreira da Silva sobre a racialidade como princípio organizador da modernidade.
Partindo da trilogia Memórias da Fazenda Brasilis — composta pelas obras merci beaucoup, blanco! (2010), Experiencing the Flooding Red (2016) e Ladeira Abaixo (2020) —, a artista propõe uma leitura autobiográfica de sua produção, compreendendo-a como um exercício contínuo de deslocamento das gramáticas coloniais que historicamente enquadram a criação artística negra como testemunho, denúncia ou representação da violência.
Em vez de compreender a prática artística como ilustração da história da escravidão, a aula parte de formas de criação precárias que atravessam a existência e que buscam escapar aos regimes da racialidade e às expectativas institucionais que determinam, antecipadamente, os sentidos da produção de artistas negros.
Articulando performance, cinema, instalação e escrita, muSa Michelle Mattiuzzi estabelece um diálogo com os pensamentos de Denise Ferreira da Silva, Tina Campt, Saidiya Hartman, Sylvia Wynter, Fred Moten e Christina Sharpe, mobilizando contribuições que interrogam a colonialidade, a racialidade, a visualidade e as formas de existência negra para além das gramáticas da violência.
A partir desse campo de interlocução, a artista propõe compreender a recusa não como um gesto de simples oposição, mas como uma prática de criação, imaginação e invenção de outras formas de vida. A aula magna é um convite ao público a pensar a memória não como retorno ao passado, mas como um campo de disputa sobre os futuros ainda possíveis e sobre os modos pelos quais a arte pode desestabilizar os regimes que administram a visibilidade, o conhecimento e a própria ideia de humanidade.
Mais do que uma retrospectiva de sua pratica artistica, esta Aula Magna constitui um exercício de pensamento sobre arte contemporânea, colonialidade, visualidade e liberdade, afirmando a criação artística como espaço de experimentação estética e política diante das persistências da violência colonial no presente.

Peter W. Schulze — Universidade de Colônia (UzK), MECILA PI
Tessa Lacerda — FFLCH-USP
Jean Tible — Departamento de Ciência Política
Tessa Moura Lacerda — Departamento de Filosofia
NÓS – Grupo de Estudos sobre Feminismos da USP
FFLCH-USP, Universidade de Colônia (UzK) & MECILA – Maria Sibylla Merian Centre Conviviality-Inequality in Latin America
Foto Andrei Siclodi