Mecila

# 33

Territórios em trânsito: a música africana nas mediações transnacionais do pertencer

Global Convivial Forum 

A migração não somente rompe, mas (re)conecta. Coloca em movimento objetos, pessoas e símbolos e opera um recriar de subjetividades edificadas em diferentes lugares.

Caio da Silveira Fernandes (Mecila Urban Narratives Fellowship)

Imagem de Caio da Silveira Fernandes

Imagem de Roberta Hessa.

Foto 1 – Workshop de dança e percussão 28ª Festa da Imigração

Foto 2 – Workshop de dança e percussão “Centro de Estudos e Cultura da Guiné”

O pertencimento é um dos aspectos mais debatidos na migração internacional. Historicamente, sua concepção privilegia uma compreensão vinculada, exclusivamente, ao país de nascimento. Pertencer, assim, torna-se o resultado da soma: território fixo e estável, presença física, determinados corpos desejados e o compartilhar de símbolos nacionais. Sob essa lógica, o movimento, migrar, converte-se em anomalia, em paradoxo insolúvel entre ser de um lugar, mas viver em outro, interditando imaginários de novas maneiras de se sentir parte.

Por outro lado, cada vez mais o fundamento do rompimento do pertencer ao migrar tem sido questionado e uma das vertentes mais marcantes dessa reconsideração tem sido um olhar transnacional. Sob essa perspectiva, a atenção volta-se, sobretudo, às simultaneidades da experiência migratória em vários campos sociais, culturais, políticos e espaciais. O principal argumento é que a migração não somente rompe, mas (re)conecta. Coloca em movimento objetos, pessoas e símbolos e opera um recriar de subjetividades edificadas em diferentes lugares.

Foi a partir dessa conflitividade que o projeto “Espaços invisíveis da cidadania: a música como mediadora do pertencimento transnacional” foi concebido e executado através do programa de bolsas Urban Narratives do Mecila. Mais especificamente, privilegiou-se duas interfaces pouco aprofundadas nos estudos migratórios: i) lugares cotidianos fundados pela mobilidade e por sujeitos tidos como “estrangeiros” por serem de outros lugares, possuírem corpos, vestimentas e sotaques indesejados para a ideia de nação e, portanto, raramente reconhecidos como parte constitutiva dos territórios; ii) a música como elemento fundamental para mediar convivialidades mesmo em contextos muito desiguais, potencializando um redesenhar das cartografias do pertencimento. O objetivo, portanto, foi confundir hierarquias, tornar o suposto universal em materialidade situada e indagá-lo através de ritmos e sons africanos.

Como referência a esses trânsitos do ser e estar, o projeto organizou, no mês de novembro de 2023, três oficinas de dança e percussão de ritmos do oeste africano comandadas por quatro migrantes músicas/os de Guiné Conacri que residem em São Paulo. Os dois primeiros workshops ocorreram na programação da 28ª Festa do Imigrante, realizada pelo Museu da Imigração do Estado de São Paulo. O terceiro ocorreu no Centro de Estudos e Cultural da Guiné, localizado na Baixada do Glicério, distrito da Liberdade, centro da capital paulista. Durante 2 horas em cada um dos dias, os e as participantes foram convidadas a tocar djembê, dundum, kenkeni e sangban e dançar ritmos como sofa, soko, kassa, sinte, provindos de regiões e culturas malinke, faranah e boke.

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As músicas vivenciadas, tocadas e dançadas interpelavam aos graves e agudos a rigidez e fixidez do pertencer ao apresentar diversas facetas em/da mobilidade física e simbólica. Convidava os e as participantes a migrar através de cadências, vozes, sotaques. Estimulava a confundir o cá e o lá; proximidade e distância; ausência e presença. Afinal, quem era e quem não era parte daqueles lugares? Por quê? Quais as espacialidades e temporalidades desses pertencimentos? Como se (des)estabilizavam a partir da experiência cotidiana e musical?

A lógica inversa na hierarquia de pertencimentos, que posicionava os migrantes como protagonistas e deslocava os nacionais buscava, justamente, provocar reflexões e questionamentos à ideia de nação (em todas a suas dimensões), bem como apontar horizontes possíveis a territorialidades e pertencimentos múltiplos e transitórios. Territórios em trânsito. Não que estranhamentos, curiosidades, desconfortos fossem capazes de recriar, por si, imaginários tão enraizados, mas, ao menos suspendê-los momentaneamente.

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Ao longo desses três dias de workshop, registros audiovisuais foram feitos no intuito de captar momentos dessas interações e materializar através de imagens as distintas figurações desses trânsitos. Como última fase do projeto, parte desse material irá compor uma exposição temporária no Museu da Imigração do Estado de São Paulo que será inaugurada no domingo, dia 02 de junho. Através dessas representações, a exposição destacará a mobilidade das formas culturais e seu aspecto mediador de práticas e subjetividades transnacionais dos territórios em trânsito. Assim, a exposição ampliará as reflexões sobre um reelaborar do pertencimento em um espaço de memória que, historicamente, escanteou de seus acervos a presença e protagonismo de migrantes não europeus na produção da cidade e do estado de São Paulo. Questionar esses apagamentos é imprescindível tanto para revisitar o passado de forma crítica, como para repensar suas reproduções desiguais na atualidade no intuito de transformá-las. Para tal, um reimaginar do pertencer em suas múltiplas dimensões é condição indispensável.  

# 32 | Parte 2

Política, Religião e Filmes: Conversando com Frei Betto e Evanize Martins Sydow

Global Convivial Forum 

Sérgio Costa (FU Berlin)

Crédito: Rose Brasil/ABr

Sérgio Costa (SC): Passando mais diretamente para o tema da religião, gostaria de perguntar sobre algo que Frei Betto vem tratando também em seus trabalhos, a perda de influência da Igreja Católica e o crescimento das igrejas pentecostais, não diferenciando aqui entre as várias denominações. Como é sabido, segundo as projeções, em menos de dez anos, o número de evangélicos superará o número católicos no Brasil. As dimensões e a rapidez deste crescimento não são nada triviais, são simplesmente gigantescas. Pelo que pude ver, sua explicação, Frei Betto, passa mais pela dimensão institucional, isto é, enquanto a igreja católica reduziu muito seu trabalho junto às bases, as igrejas evangélicas investiram e investem muito na busca de fiéis. Não há dúvida que isso tem importância. Gostaria de saber, contudo, se não há também uma explicação teológica para essa mudança. Isto é, será que o êxito das igrejas pentecostais não está também associado aos conteúdos que difundem? Ao propagar aquilo que alguns chamam de teologia da prosperidade e insistir em dogmas como o família heteronormativa e tradicional, o pentecostalismo parece lograr oferecer segurança ontológica a seus fiéis num momento em que laços sociais estão abalados pela precarização, pela violência, pela polarização, etc. Por que a igreja católica não vem conseguindo responder a essa demanda espiritual não pela chave conservadora mas pela chave progressista como fez a Teologia da Libertação nos anos da ditadura?

Talvez, Evanize, você que organizou um livro recente sobre religião e política pudesse também comentar como vê esse crescimento.

Frei Betto (FB): Na minha opinião, o principal fator de crescimento das igrejas evangélicas no Brasil é a Igreja Católica. Ponto. Ou seja, aquilo que o Papa Francisco – porque a Igreja Católica hoje é um corpo conservador com a cabeça progressista, portanto, um ser esdrúxulo – tanto tem denunciado, o clericalismo. Você vai numa missa, ela dura no máximo uma hora, mas fica olhando o relógio. É chatíssimo. Aquele hora não passa, é mecânico, é sempre a mesma coisa. E pior quando o padre não sabe pregar. E pior ainda, quando não sabendo pregar, ele demora um tempão para fazer o sermão. E o pior ainda, como vi, quando, num casamento, ele fala para os noivos sobre aborto.

Aí você vai numa igreja evangélica, você é recebido afetuosamente. Se esse evento aqui fosse um culto evangélico e entrasse ali uma pessoa que nenhum de nós jamais tinha visto antes, o pastor na mesma hora diz, “irmão, por favor, entre, vamos aplaudir o irmão”. E depois daquele culto ultra-interessante, porque tem um coro que canta bem – como se canta mal na Igreja Católica! Mas se canta mal porque não tem (antigamente tinha) curso de canto. Como se toca mal. Parece o rapaz que vi aqui no portão de Brandemburgo no domingo, que estava fazendo o maior sucesso, mas de vez em quando largava a guitarra para regular o som, e a guitarra continuava. Ou seja, até eu, né? Eu vou arrumar uma guitarra dessas, porque assim é fácil. Via-se que a guitarra dele estava toda gravada ali, na caixa de som. Claro, ele cantava, coisa que não faço. E ele cantava bem. Mas o pessoal no culto toca e canta bem, depois tem vídeo, tem cura! A gente pode colocar mil interrogações sobre o que significa isso. Mas funciona, porque conta o fator psíquico. Já tive essa experiência. Eu dou bênção da saúde para amigos que depois me ligam, agradecendo: “Você veio aqui, me deu essa bênção, deu uma melhorada. Estou me sentindo mais disposto”. Porque isso é psicológico, assim como você receber uma péssima notícia te deixa para baixo, receber uma boa notícia mexe com a sua autoestima, são detalhes assim. Então creio que o principal fator é o retrocesso da Igreja Católica, a misoginia, o clericalismo.

Pouca gente sabe disso, mas a Igreja Católica é um corpo que tem 24 braços, 24 segmentos católicos no mundo ligados ao mesmo papa. Só um, o romano, exige o celibato obrigatório. Só um. Para os outros 23 é optativo, quer casar, casa e continua sacerdote. Não quer casar, não casa. Mas o romano, que é o predominante aqui no ocidente, insiste no celibato obrigatório. E depois vem o problema dessa forte misoginia, que é impedir a mulher de chegar aos vários graus da hierarquia católica, inclusive a papa. Não há nada no Evangelho contra isso. Pelo contrário, no grupo de Jesus, havia mulheres cujos nomes são conhecidos, abra o Evangelho de Lucas, capítulo 8, versículo 1. Não sou protestante, mas decorei… Você olha lá, encontra o nome das mulheres do grupo de Jesus. Geralmente o protestante sabe citar a Bíblia mais do que o católico. Porque católico também não tem curso bíblico, fica no sermão, mas o protestante estuda a Bíblia.

Há também a questão dos costumes, que é importante. Costumes mudam a vida da gente. Por causa de uma relação afetiva, você larga a Bahia com aquele calor maravilhoso, e vem morar aqui na Alemanha com esse frio como está fazendo hoje e fez ontem. Mas vem porque está apaixonado por alguém. Quer dizer, a questão do costume é uma questão muito séria na mobilização subjetiva das pessoas e objetiva em decorrência disso. E, no entanto, a esquerda sempre ignorou. Parece escola. Os que foram alunos de colégio religioso sabem – eu, felizmente, só fui nos quatro anos de ginásio, o resto todo foi escola pública. Mas nunca a escola tocou nos seguinte temas: sexo, fracasso, ruptura afetiva, doença, morte, situações pelas quais todo ser humano passa. Nunca a escola abordou os temas essenciais da existência humana. Passa por cima, ou seja, a família fica esperando que a escola ensine e a escola fique esperando que a família ensine. E aí aprende-se na rua. E quando mais se aprende na rua, mais bobagens se faz. O meu pai dizia, sexo e política, quando mais você aprende na rua, mais bobagens você faz nas urnas e na cama. Então é isso, porque as pessoas evitam tocar nesse tema. Creio que tem muito chão ainda para caminhar.

SC: Obrigado, Frei Betto, eu não sei se você, Evanize, gostaria de acrescentar alguma coisa.

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Evanize Sydow (ES): Só tem um aspecto que talvez seja importante também, que é a comunicação. É a maneira como as religiões neopentecostais se apropriaram dos canais de comunicação, principalmente os digitais, que não só a esquerda não domina, mas a Igreja Católica também não. Então eles são muito mais interessantes, muito mais criativos. E mesmo jovens católicos preferem assistir cultos nas redes sociais. Eu inclusive já assisti vários, eles são muito mais interessantes de ver. Então eu acho que os canais de comunicação são um outro tema que a gente precisa tocar quando se fala de religião e política hoje em dia no Brasil.

SC: A próxima pergunta é sobre clima e meio-ambiente, parte também menos conhecida das reflexões de Frei Betto. Em um pequeno livro, no qual discute a encíclica do Papa Francisco de 2015 sobre o cuidado da natureza, nossa casa comum, com o sociólogo e teólogo belga François Houtart, infelizmente já falecido, Frei Betto aponta que a natureza pode ser vista, juntamente com a Bíblia, o magistério e a tradição, como fonte da revelação divina. Aqui eu me permitiria colocar alguns problemas, ainda que a ideia me pareça encantadora. Se partimos da história da Igreja Católica, ou até mesmo da história do cristianismo, eu diria que as religiões cristãs foram um dos fatores mais fortes daquilo que Nego Bispo chamou de cosmofobia, ou seja, a rejeição e destruição de muitas outras cosmologias e de religiões animistas que, com o seu politeísmo, mostram a continuidade ente seres humanos e natureza.

O que eu pergunto, Frei Betto, é se, de fato, é possível do ponto de vista teológico (já nem digo do ponto de vista institucional), a religião católica fazer essa virada, deixar de ser antropocêntrica para pensar nos seres humanos não como os donos de uma natureza da qual eles podem se servir, mas como aqueles que devem cuidar da natureza, como filosofias indígenas e quilombolas nos ensinam. Ou seja, é possível imaginar um cristianismo, e eu acrescentaria, igrejas ou religiões monoteístas, que não sejam antropocêntricas? Isso não seria, digamos, a quadratura do círculo?

FB: É, essa afirmação de que a natureza é fonte da revelação divina é herética aos olhos dos meus confrades dominicanos, que somos todos discípulos de Santo Tomás de Aquino. E essa afirmação vem de Santo Agostinho. Santo Tomás foi muito esperto. Ele, em suas obras, crítica inúmeros autores que o precederam, inclusive Agostinho. Ele diz: “Quem lê a Suma vê, Agostinho disse, pá, pá, pá, pá, pá, eu, porém…”, e arrasa com Agostinho. Ele jamais criticou alguém vivo. Foi muito esperto. Jamais criticou um vivo. Só critica quem já morreu. E Agostinho dizia que Deus nos entregou dois livros. Pela ordem, primeiro, a natureza. E segundo, a Bíblia . De modo que, a partir do segundo, podemos ter a luz para enxergar melhor o primeiro. Isso é muito bonito! Então o Papa Francisco certamente conhece isso, certamente ele também –  ele, ele não afirma, como afirmo claramente. Claro, não sou papa nem candidato a papa, embora possa ser eleito, porque pelo direito canônico qualquer católico ou homem batizado, mesmo casado, como já aconteceu historicamente, pode ser eleito papa – mas fecha o parênteses, a não ser que alguém esteja interessado aqui. Mas, enfim, o papa dá a entender isso na encíclica Laudato si’ (2015), que é uma encíclica revolucionária, porque pela primeira vez na história, um papa faz uma encíclica sobre a questão ambiental. E ele fica irritado quando alguém diz, “obrigado que o senhor fez encíclica verde”. Verde, droga nenhuma, é sócioambiental. Ele quer mostrar que as principais vítimas do desequilíbrio ambiental são os pobres e as consequências que isso tem. Então creio que isso poderia ser incorporado.

Evidente que você pegou a dimensão holística das tradições de matriz africana, que é muito rica. Mas eu, por intuição, muito antes dessa encíclica, eu já tinha produzido um livro, A Obra do Artista: uma visão holística do universo (2012), fazendo uma leitura ao mesmo tempo científica, entre aspas, porque não é um livro de intenção científica, não é o meu ramo, mas uma descrição com a linguagem científica dos sete dias da criação, do Big Bang ao surgimento do ser humano. Nesse livro, mostro essa interação entre nós e a natureza e ressalto esse aspecto: A natureza viveu bilhões de anos sem a nossa incômoda presença, bilhões de anos! Ora, ao longo desses bilhões de anos, ela criou e extinguiu várias espécies, a mais conhecida os dinossauros, há 70 milhões de anos. Ela pode tranquilamente extinguir a espécie humana e continuar o seu caminho sem a nossa incômoda presença. Por uma razão muito simples, porque em nada ela precisa de nós. Agora descubra nessa sala algo que não veio da natureza. Não tem nada que não veio. Tudo, esse tapete, esse teto, essa garrafa, esse microfone. Nós mesmo, tudo veio da natureza. A matéria-prima de tudo o que existe nessa sala decorre da natureza, então nós não podemos prescindir da natureza. Mas ela tranquilamente vive sem a gente, se resgata, se recupera. Falam de ogivas nucleares, mas nada impede que um novo meteoro como aquele que caiu no Golfo do México, amanhã, caia lá em Belo Horizonte, na nossa terra.

SC: Gostaria de finalizar essa rodada de perguntas com uma pergunta sobre política internacional.

Ainda que aspectos como a proteção do trabalho decente, a justiça social e a defesa da democracia e dos direitos humanos continuem sendo temas caros às forças progressistas na Europa e na América Latina, a política internacional representa, hoje, um campo onde a esquerda latino-americana e a esquerda europeia apresentam posições irreconciliáveis. A esquerda na América Latina, escaldada pelas experiências traumáticas do colonialismo e do imperialismo, parece apostar numa ordem mundial multipolar, na qual Rússia e China têm papel de destaque. As forças progressistas europeias, pelo menos verdes e social-democratas, não aceitam China e Rússia como aliados, ao contrário, apostam ainda na Europa Ocidental como polo de virtude capaz de garantir a hegemonia de um ocidente esclarecido e humanista. Frei Betto, como humanista de profundas convicções que é, como vem acompanhando essas discussões?

FB: O grande problema, a meu ver, na esquerda europeia, se é que ela ainda existe – na América Latina se diz que na Europa só há uma pessoa de esquerda e mora no Vaticano, que é o Francisco –, o grande pecado histórico da esquerda europeia é que ela tinha ideologia, cultura, as cabeças mais iluminadas da intelectualidade europeia, enorme capacidade de organização e também convicções revolucionárias enormes – muitos deram a vida pela causa. Só faltou um detalhe: povo, só faltou isso. E trabalhar com os mais pobres, aí era complicado.

Eu me lembro, [Louis] Althusser que contava isso. Havia muito tempo que um grupo de professores marxistas da Sorbonne queria aproveitar um feriado prolongado para ir para o interior fazer um seminário. Aí começou a greve de 68, eles não deram muita importância àquele movimento estudantil. Falaram, vamos aproveitar que a universidade está fechada, vamos lá para a cidadezinha fazer o nosso seminário. Foram para o seminário. Só que de repente eles viram pela televisão que o negócio começou a pegar fogo e que era uma coisa nova, não era uma paralisação que ia durar dois, três dias, e aí quiseram voltar para Paris como bons marxistas para participar. Só que também os ferroviários estavam em greve e eles ficaram isolados.

Então é isso que acho que falta na tradição europeia. Faltou um contato com o povo. Quando o muro de Berlim caiu, caiu sobre a cabeça da esquerda europeia. Por quê? Porque ela não tinha raízes populares. Para mim, é essa a questão.

Gente, muito obrigado, que Deus nos abençoe.

#32 | Parte I

Política, Religião e Filmes: Conversando com Frei Betto e Evanize Martins Sydow

Global Convivial Forum 

Sérgio Costa (FU Berlin)

Arquivo pessoal

Durante o Festival de Cinema de Berlim, a Berlinale, ocorrida em fevereiro de 2024, Frei Betto, a historiadora e co-autora de importante biografia do escritor brasileiro, Evanize Martins Sydow, e uma equipe de produtores e cinegrafistas estiveram na cidade para apresentar filmes em preparação relacionados com a vida e a trajetória do ativista dos direitos humanos e frade dominicano. Os filmes integram o projeto A Cabeça Pensa onde os Pés Pisam, que documenta a trajetória religiosa, intelectual e política do autor de Fidel e a religião (1985). Na ocasião da visita do grupo a Berlim, por iniciativa da Embaixada do Brasil na Alemanha e do Instituto Ibero-Americano, foi organizada uma roda de conversa com Frei Betto e Evanize Sydow. Sérgio Costa, professor titular de sociologia da Freie Universität Berlin, foi o mediador do diálogo. Apresenta-se abaixo a transcrição resumida e ligeiramente editada das conversas conduzidas na ocasião entre os participantes da mesa. O evento contou ainda com um diálogo com o público presente que, por razões de espaço, não está documentado nesta matéria.

Sérgio Costa (SC): É uma grande honra e satisfação mediar esta roda de conversa com Evanize Sydow e Frei Betto.

Evanize Sydow é jornalista, mestre e doutora em história pela Fundação Getúlio Vargas. Ela tem atuado como consultora de várias organizações internacionais, particularmente das Nações Unidas, como a UNESCO e o PNUD. É documentarista e pesquisadora da organização Mirar Lejos, da qual é vice-presidente. Publicou vários artigos e livros sobretudo nas áreas de direitos humanos, democracia e religião. Dado o ensejo desta roda de conversa, gostaria de destacar dois livros, a biografia de Paulo Evaristo Arns, escrita em coautoria com Marilda Ferri, e a biografia de Frei Betto, escrita juntamente com Américo Freire. Este último livro já está em sua segunda edição em português e foi traduzido para o espanhol e o inglês.

Vou ser muito breve na apresentação de Frei Betto, já que teremos oportunidade de visitar mais detidamente nesta roda de conversa várias estações de sua intensa vida espiritual, religiosa, política e intelectual. Frei Betto é frade dominicano, meu ilustre conterrâneo, nascido na capital de Minas Gerais, Belo Horizonte. Frei Betto tem sido um dos personagens mais marcantes, senão o mais marcante, das lutas por democracia e justiça social no Brasil e na América Latina há pelo menos cinco décadas. Politicamente, Frei Betto, como um dos principais nomes da Teologia da Libertação com vastíssima experiência na formação de lideranças de base, teve e continua tendo um papel fundamental para reconciliar as forças progressistas com o que chamávamos de setores populares. Intelectualmente, seu trabalho é igualmente vigoroso. Publicou mais de setenta livros sempre muito sintonizados com as urgências de seu tempo, para não falar dos romances que, talvez, sejam um lado menos conhecido de seu trabalho. Recebeu vários prêmios tanto como escritor quanto como defensor de direitos humanos no Brasil e no exterior.

Para demarcar alguns temas que me parecem particularmente relevantes, naturalmente sem cercear outras perspectivas e aspectos que lhes interesse, gostaria de, valendo-me da minha prerrogativa de mediador, fazer algumas perguntas iniciais. Gostaria de abordar particularmente seis campos: a trajetória de Frei Betto, o momento político brasileiro, as relações entre política e igreja, meio ambiente e clima e, finalmente, política internacional.

Evanize, poderia nos contar um pouco do longa-metragem e dos filmes que estão preparando? E particularmente sobre o longa, qual é a ênfase principal, busca-se combinar aí tanto a trajetória de Frei Betto tanto como líder religioso e espiritual quanto sua atuação política? Brincando um pouco com a relação sempre difícil entre livros e filmes, pergunto a você, Evanize se, nesse caso, o filme seguirá os passos da biografia tão exitosa da qual você é co-autora?

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Evanize Sydow (ES): Quero primeiro agradecer vocês todos por estarem aqui, ao professor Sérgio, à parceria com o Instituto Ibero-Americano e dizer que, para nós, é uma honra poder estreitar laços de cooperação. É um privilégio conviver um pouco durante estes dias com esse ambiente, junto com Frei Betto. Estamos trabalhando há seis anos no projeto dos filmes. Começamos com a ideia de um documentário baseado na biografia que escrevi, juntamente com o Américo Freire, e que a gente entendeu que havia a possibilidade de trazer uma linguagem nova para uma trajetória que é muito atual, a de Frei Betto. Ele é um personagem que circula muito, em grupos muito diferentes. Tem um grupo de amigos na área das artes, por exemplo, circula na área da literatura entre os seus pares, na Igreja e na política, nos movimentos sociais. Então, a gente tinha vontade de trazer um pouco dessa trajetória para uma linguagem cinematográfica. O projeto acabou ampliando-se e o que estamos produzindo é uma trilogia. São três documentários que abordam, cada um deles, aspectos particulares da trajetória de Frei Betto.

O primeiro, que está saindo agora, na segunda quinzena de março, aborda a trajetória de Frei Betto na educação popular, e traz toda sua experiência nos movimentos populares, nos movimentos sociais, já quando ele sai da prisão e vai viver numa favela em Vitória. E, depois, quando vai para a região do ABC e tem contato com as lideranças que hoje são algumas das lideranças mais importantes no Brasil, incluindo o próprio Lula. Na verdade, a gente revisita esse processo todo dele e atualiza esse trabalho. No Brasil, hoje, o governo está trazendo uma proposta de ampliar os educadores populares, o que confere atualidade renovada à educação popular. O Frei Betto está, inclusive, ajudando o governo nisso. Então a gente está atualizando esse tema, além de refazer toda a trajetória do Frei Betto dentro da educação popular, incluindo outros personagens que foram e são importantes para esse tema. Esse é o primeiro documentário.

O segundo, que sai em julho, é sobre os percursos literários do Frei Betto. E aí a gente vai retomar algumas obras-chave, recuperando toda a parte histórica de Minas que ele trabalha em seus romances. Enfim, há aí vários depoimentos interessantes, como o do escritor cubano Leonardo Padura, por exemplo. Muita gente não conhece os romances do Frei Betto, é um lado menos conhecido que sua obra memorialística.

O terceiro documentário é sobre uma expressão que ele cunhou, “fraternura”, que envolve justamente todas essas redes nas quais ele transita. Ele trabalha um pouco essa questão toda, ou seja, como se relacionar com grupos ­– de oração, por exemplo –  e aqui entra a questão da espiritualidade.

Além desses documentários, há um longa metragem que vai sair, que é uma ficção com elementos documentais. É sobre um aspecto que é muito pouco trabalhado na obra de Frei Betto, principalmente no Brasil, que é seu papel internacional. A gente vai tratar muito sobre o papel e a importância dele em Cuba e, particularmente, como ele fez e continua fazendo esse trabalho de intermediação com países socialistas, não só Cuba, mas Cuba é o ponto principal.

Pablo del Teso, que está aqui e vai ser o diretor, é argentino. O ator brasileiro Henrique Dias vai fazer o papel de Frei Betto. E então esse é, digamos assim, o pacotão para a gente discutir e que vai enfatizar a importância do Frei Betto para a história, na construção de diversas pontes diferentes, e sua importância para o Brasil de hoje e para

os movimentos sociais. O primeiro documentário, por exemplo, traz o Guilherme Boulos falando como o Frei Betto é uma referência para ele. Ou seja, não só nos anos 1980 Frei Betto foi uma referência, temos uma nova liderança hoje que também tem Frei Betto como referência para o seu trabalho, tanto no dia a dia como em seu trabalho como parlamentar.

A linguagem cinematográfica permite mostrar o personagem Frei Betto de uma maneira mais lúdica para o público.

Frei Betto (FB): Há outro documentário que está sendo feito pelo diretor Roberto Mader, que dirigiu Condor (2007), sobre as ditaduras do cone sul, e outros filmes também. Mas o projeto do Roberto, que já começou as filmagens, segue em marcha um pouco mais lenta comparado com a produção da Evanize.

SC: Gostaria de passar ao segundo tema, o momento político brasileiro atual, certamente muito mais favorável que até 2022, mas ainda assim difícil e delicado. Não se pode ainda baixar a guarda, é preciso que estejamos muito atentos a cada passo para que não haja outros retrocessos. Sobretudo Lula, e não necessariamente o PT ou o sistema político como um todo, continua sendo o principal fiador e garantia da democracia e da justiça social, o que mostra a fragilidade dos acordos políticos existentes.

Frei Betto, gostaria de saber como vê as mudanças recentes no Brasil e a polarização social e política que continua existindo. Em uma de suas análises sobre o avanço da direita no mundo, você cita Carl Schmitt e sua teologia política. A explicação do que vivemos e temos vivido no Brasil passa por aí? Ou seja, será que a direita aprendeu do teórico autoritário alemão e tem conseguido recodificar a política e a vida em sociedade, de disputas por diferentes visões do bem comum, em uma luta irreconciliável entre amigos e inimigos?

FB: O professor Antonio Candido dizia que o maior benefício do socialismo não ocorreu em um país socialista, mas na Europa ocidental. Trata-se da social-democracia e que veio para deter a ameaça comunista aos países da Europa ocidental. A social- democracia veio para entregar os anéis de modo a não perder os dedos. E, com isso, a classe trabalhadora aqui na Alemanha Ocidental ganhou melhores condições de vida. Só que essa maquiagem do capitalismo acabou com a queda do muro de Berlim. A partir daí já não era preciso mais fazer concessões à classe trabalhadora. Então veio o caráter neoliberal do capitalismo com toda as suas agudizações na relação de classes. E, com elas, essa emergência da direita. A direita sempre existiu, ela só não tinha saído do armário como saiu agora, no mundo inteiro, porque já não há a ameaça comunista. Não há ameaça de outro sistema alternativo que possa realmente abalar os alicerces do capitalismo.

E essa polarização acontece favorecida pela religião. A esquerda cometeu um erro grave que vem lá da tradição iluminista que vê a religião como superstição, algo fadado a acabar com o avanço da humanidade e do pensamento científico. Esse fenômeno vai acabar? Isso é resquício dos tempos antigos? A história mostra que não. Pelo contrário, se fortalece. Eu tenho uma teoria por que a religião se fortalece. Nós temos um sistema de sentido pelo qual consciente ou inconscientemente norteamos a nossa existência. Dentre os vários sistemas de sentido, que não são muitos, são três ou quatro, o mais abrangente é o religioso. E por que? Porque é o único que explica o que é que havia antes do Big Bang. Ninguém, nem [Albert] Einstein, nem [Max] Planck, nem [Werner] Heisenberg explicam o que havia antes do Big Bang e o que haverá depois da morte de cada um de nós. Então não há nenhum outro sistema tão abrangente que explique desde a criação do Universo até a briga de João e Maria, a reconciliação, o perdão. E vai do mais abrangente ao mais íntimo. Só que, por um equívoco hermenêutico muito grave, se interpretou de uma maneira errada a frase de [Karl] Marx de que a religião é o ópio do povo. Ela foi lida fora de contexto.

É como hoje muitos cristãos fazem com a Bíblia, não é? A teoria literária ensina que uma boa leitura é um triângulo, é texto, contexto e pretexto. Ou seja, quem mais entende a obra de Goethe, o baiano ou o alemão? Evidente que o alemão. Agora, quem entende melhor o Jorge Amado. É o baiano. Quem entende melhor o Guimarães Rosa? É o mineiro. Porque está no contexto do texto, e isso favorece o pretexto, ou seja, a motivação, as consequências, os efeitos da leitura.

Aquilo foi tirado do contexto, inclusive do contexto histórico porque Marx critica Bakunin que propôs na Internacional Comunista que uma das condições de inscrição dos operários fosse o ateísmo. E Marx não aceita. O que importa é que seja revolucionário, não importa se tem fé ou não tem fé. Mas adotou-se o ateísmo como condição de ser comunista, e esse erro o capitalismo jamais cometeu. Pelo contrário, sempre manipulou a religião. Hoje a esquerda corre atrás do prejuízo. E não é fácil recuperar isso, por mais que, vamos dizer, taticamente, a esquerda queira agora lidar com isso. No Brasil, ela conseguiu lidar muito bem e por isso ela engordou politicamente através do PT graças às Comunidades Eclesiais de Base. Mas esse é um fenómeno que não é universal e que refluiu na própria América Latina depois de 34 anos dos pontificados conservadores de João Paulo II e Bento XVI.

Então houve um refluxo desse fenômeno. Mas o fenômeno religioso é o substrato cultural de bilhões de pessoas. Na América Latina, ele é o substrato cultural de toda a população, com exceção do Uruguai. O único país laico da América Latina é o Uruguai. O resto, se você pergunta a um camponês, a uma faxineira, o que é que eles pensam da vida, do mundo da morte, virá uma resposta em categorias religiosas. E, no entanto, a esquerda menosprezou e a direita sempre manipulou isso inteligentemente.

Aqui na Europa, principalmente neste país, na Alemanha, onde se criou a teologia política – e aqui entra a questão do Carl Schmitt – nunca conseguiram entender como é que eu, frade cristão, posso aceitar o marxismo como método de análise. Se há uma coisa em que o Kremlin e o Vaticano são idênticos é que, para o Vaticano, o comunismo é uma outra religião. E para o Kremlin, o cristianismo é uma outra ideologia. Estão equivocados. Estão equivocados porque não são, são coisas absolutamente distintas. O marxismo é uma sociologia, uma ciência se você quiser, de interpretação dos dados da realidade objetivamente ao nível da razão, enquanto a religião, não. A religião é supra-racional, não é irracional, mas é supra-racional. Ela está na dinâmica da fé, do sentimento, da subjetividade. E você crê. Agora é evidente que a tradição marxista tem muito de conteúdo religioso, é uma religião laicizada. Conheci estruturas de partidos comunistas que tinha papa, cardeal, bispo, heresia, pecado, condenação – igualzinho! Enfim, a questão é outra, é manter essa sabedoria de entender que a relação entre fé e política sempre existiu e sempre existirá, isso são favas contadas. A questão é como não confessionalizar a política, o que o Bolsonaro queria fazer. E ao mesmo tempo, como não partidarizar a religião. Esse é o desafio. Você não pode estabelecer que na minha igreja só entra quem é do PT. Ou só entra quem é de outro tal partido, não pode isso. Quer dizer, a sabedoria está em respeitar hoje a conquista da modernidade [que é a separação] entre religião e política, mantendo o caráter laico da política. Muita gente fica chocada no Brasil, quando afirmo que sou a favor, primeiro, que as igrejas paguem impostos. Você quer lavar dinheiro no Brasil legalmente? Funda uma igreja. Sou por tirar o crucifixo dos locais públicos, dos tribunais, por exemplo. Não vejo razão por que uma religião predominante mantem seu símbolo num lugar não religioso, não vejo razão. Mas, por outro lado, também não vejo razão numa missa, na nossa comunidade, colocar uma bandeira do PT no altar, não tem nenhum sentido isso. Essa questão precisa ser melhor trabalhada.

Mas o problema é que a direita hoje tem essa vantagem de saber manipular a religião. Diga-se de passagem que a maior crítica que Jesus faz nos Evangelhos não é a quem não tinha religião (já que não havia esse fenômeno na época dele) nem a quem tinha outra religião, como o caso dos romanos, que eram pagãos – ao contrário do que alguns pensam, o paganismo é uma religião, não é ausência de religião. A crítica de Jesus era principalmente àqueles que tinham uma religião muito semelhante à dele, os fariseus. A maior crítica que ele faz é à religião na qual ele nasceu. Então a crítica da religião não pode ser a antirreligiosidade. Essa é a questão. Você pode ter o direito de não ter fé, de ser agnóstico, ateu, graças a Deus, como muitos no Brasil. Mas o que não pode é politicamente adotar a atitude antirreligiosa, porque é um desrespeito ao povo. Essa é a questão. É como hoje ser homofóbico, misógino, anti isso e aquilo. Não pode ser anti. Tem que respeitar. E não tolero a palavra tolerância. Tolerar é assim, “eu não suporto, mas vou educadamente aguentar”. Não, tem que respeitar, essa é a questão, não é tolerar. Tem que erradicar isso. Sou intolerante com a tolerância. Então, esse o desafio fundamental.

#31

Image by Nikolai Kanow.

Mecila Civil Society Workshop 2024 in Berlin: Together at last?

Global Convivial Forum 

The interview conducted in writing on February 7 2024, by Katrin Schlotter, was first published on the BMBF Webpage, under «Rahmenprogramm Geistes- und Sozialwissenschaften (GSW)».
  
Translated from German by Nina Leibbrandt.
 
 

Image by Nikolai Kanow.

From 18 to 20 January 2024, the Institute for Latin American Studies at Freie Universitӓt Berlin and Mecila hosted the Mecila Civil Society Workshop 2024 in Berlin, which discussed the topic of climate interdependencies between Europe and Latin America. Mecila spokesperson Prof. Dr. Sérgio Costa presents the most important topics and findings.

 

At Mecila, you investigate past and present forms of social coexistence in Europe and Latin America. What influence do the effects of climate change have on the reciprocal relations?

Issues relating to climate change are ideally suited to examining the interaction between inequality and conviviality from a transregional perspective. Thus, the effects of human activities on the climate are not bound to a specific location: No matter where on earth climate-damaging emissions occur, it is known that they have consequences for the entire planet. But the social and environmental damage caused by these activities is unevenly distributed both socially and geographically. These initially abstract interdependencies were illustrated using specific cases in our workshop.

A good example is electromobility, which is at the heart of the German and European decarbonization strategy. In this regard, the contributions of an environmental activist from the Brazilian Jequitinhonha Valley, now renamed the Lithium Valley, and the representatives of the Grünheide citizens’ initiative in Brandenburg, which is fighting against the expansion of a so-called gigafactory for electric cars, were particularly relevant. During the exchange between activists and researchers, it became clear that individual electromobility contributes to better air quality, especially in cities, but that in the overall balance it has enormous social, environmental and climate consequences both in Latin America and Europe.

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How can Mecila contribute to a better understanding and management of the effects of climate change?

In addition to comprehensive interdisciplinarity, the Mecila Center has followed the principle of transdisciplinarity since its foundation in 2017. This covers methodological approaches that consciously reject the rigid separation between «subjects of knowledge» (scientists) and «objects of knowledge» (groups under investigation). Rather, it is a dialogical and collaborative work process in which scientific and practice-oriented approaches intertwine. This concept was given a more concrete form in the workshop and proved to be extremely productive. It became clear that indigenous and other so-called traditional communities make a genuine contribution to understanding and overcoming the climate crisis through their philosophies and ways of life, in which people and nature are not seen as separate entities but as a continuum. Science, on the other hand, sheds light on the complex entanglements that make up climate change.

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The motto of your workshop was «Together at last?». Which topics were discussed particularly intensively?

The history shared between Europe and Latin America has been characterized by colonialism, slavery and economic dependence. In the workshop, we asked ourselves whether climate change would fundamentally alter the relationship between the two regions. The provisional answer is: unfortunately not. At least in the short term, Europe and especially Germany are in a position to export the costs of climate adaptation and their own crises. This became particularly clear in the discussions on German coal imports from Colombia. The contributions by an environmental and women’s rights activist from the indigenous Wayuu community and a human rights activist from the indigenous Yupka community made it clear how the growing demand from Germany following the interruption of Russian coal imports is inextricably linked to the contamination of water sources, the destruction of habitats and famine for various indigenous communities and peasants in Colombia. Moreover, the drastic consequences of coal mining and the corresponding combustion for global warming are well known, regardless of the region of the world in which this takes place.

What is your conclusion about the event? Are there any solutions?

The dialog between researchers and activists on climate issues highlighted the urgency of replacing national pseudo-solutions to the climate crisis with planetary perspectives. The importance of the interdependencies between the different regions of the world as well as between humans and nature for the maintenance of life on the planet is becoming the focus of interest in terms of knowledge and action. 

What other events are planned for 2024?

I would particularly like to highlight our Annual Meeting, which will take place in São Paulo from October 7 – 11, 2024. Other exciting Mecila events take place almost weekly, as you can see in our program of activities.

Thank you very much for the interesting interview, Prof. Costa!

#30

1st Mecila Alumni Symposium: Bridging Knowledge and Fostering Collaboration

Global Convivial Forum 

Raquel Rojas (Postdoctoral Investigator, Mecila / FU Berlin)

Mecila 1st Alumni Symposium.
Image: Nina Leibbrandt

The 1st Mecila Alumni Symposium served as a catalyst for reconnection, insights for new fellows, and collective reflections within the Mecila community.

 

From 2 to 4 November 2023, a vibrant gathering took place in Berlin as former Mecila Fellows reunited to discuss the progress of their research since concluding their stay in São Paulo in November 2022. The symposium served as a platform for discussions, reflections, and exchanges, highlighting the pivotal role of the Maria Sibylla Merian Centres of Advanced Studies in reshaping academic landscapes and reducing global knowledge asymmetries.

In his inaugural address, Freie Universität Berlin President Günther M. Ziegler underscored the significance of the Merian Centres as instruments of science diplomacy, fostering academic freedom even in challenging political climates. He emphasized their role in facilitating collaboration among scholars socialized in various academic cultures, thereby contributing to overcoming colonial and Eurocentric legacies still present in the humanities and social sciences in Europe and Germany. The Ambassador of Brazil in Germany, Roberto Jaguaribe, and the representative of the German Federal Ministry of Education and Research, Ministry Counselor Vivien Baganz, also emphasized Mecila’s pivotal role in promoting cooperation on an equal footing between scholars and institutions from Germany, Latin America, and worldwide.  

The symposium provided a variety of settings in which former and future fellows, principal investigators, postdoctoral investigators, and other members of the Mecila community could engage in lively discussions, conversations, and exchanges.

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The first panel delved into the contributions of centres of advanced studies to both local and global academic communities. It emphasized the importance of giving researchers the time and space to think (and rethink) their projects in order to come up with new ideas, while providing an environment in which they can learn with and from colleagues across different disciplines, thus enriching their perspectives. The Merian Centres, in particular, were commended for bridging mainstream and alternative circuits of knowledge dissemination thereby enhancing their potential for innovative knowledge production. Their practices are designed to promote symmetric dialogues and collaborations between scholars and non-academic experts (activists, indigenous leaders, artists, practitioners) from various regions, generations, and social positions. Participants also stressed the need to intensify efforts in involving science policymakers, governments, and funding institutions in dialogues designed to highlight the benefits of promoting horizontal cooperation between institutions from the Global North and the Global South.

The second day began with a tour of Wissenschaftskolleg zu Berlin (WIKO) and the Forum Transregional Studies, offering insights into their history, work, and ongoing projects. In the afternoon, the interdisciplinary panels led by former fellows focused on overcoming epistemic violence, redefining established concepts, and prioritizing marginalized voices and agency. Discussions highlighted the importance of embracing diverse epistemologies and methods that respect and acknowledge the perspectives of research interlocutors.

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On the last day, after a comprehensive discussion about collaborative research experiences, Mecila’s role in advancing fellows’ projects, and future collaborations, the symposium concluded with an on-site discussion at the Floating University Berlin, emphasizing the need to bridge academic and non-academic knowledge and involve communities in researchers’ projects. This underscored the overarching theme of the symposium: the imperative to challenge colonial and Eurocentric legacies through collaborative theoretical and methodological approaches.

In essence, the 1st Mecila Alumni Symposium served as a catalyst for reconnection, insights for new fellows, and collective reflections within the Mecila community. It showcased the transformative potential of academic collaboration and knowledge exchange, shaping a more inclusive and equitable future for social sciences and humanities.

Mecila 1st Alumni Symposium.
Image: Nina Leibbrandt

#28

The Tip of Mecila’s Iceberg: Collective Testimonial

Global Convivial Forum 

Jörg Dünne, Vanessa Massuchetto, Joanna Moszczynska, Jessica O’Leary,
Raphael Schapira, Simone Toji, Ana Carolina Torquato, Daniela Vicherat Mattar (Fellows 2022)
 

En este texto the fellows 2022 queremos describir en parte nuestra experiencia en Mecila. Hemos armado un texto usando como inspiración na idea surrealista del «cadavre exquis». Todas y todos contibuimos con un párrafo en cada una de las secciones que articulan el texto, and we did it in the different languages we spoke during out fellowship. Finalmente, decidimos manter a autoria coletiva, como um reflexo de nossa experiência como fellows.

Locating Mecila

Visto desde el patio del Cebrap en Vila Mariana, Mecila parece bien übersichtlich (easy to be grasped at one glance): en la parte de atrás trabajan la mayoría de los fellows, en la parte de delante el staff del Mecila y en medio hay el bar donde todos se encuentran. Mas não é assim tão simples: Prussian bureaucracy rules
also in Brazil, directors from Cologne falam portunhol (pode ser Pedro), y los libros del Iberoamerikanisches Institut no pasan por la aduana brasileña. At the Annual Meeting in October, the hidden part of the Mecila iceberg finally appears…
 
Arriving at Mecila, I was very excited and curious about what 2022 was going to be like. All my expectations were surpassed not only because of the high academic level of all studies we debated, but mostly because of the people. The principal and associated investigators, the people from the coordination office, the Ph.D. students, and, of course, our group of fellows amazed me on a daily basis with a very very kind conviviality.
 
Entonces, yo puedo decir que el ambiente de trabajo de Mecila es tan agradable como el de la casa de Cebrap. Personas muy maravillosas, construcción de relaciones sinceras y trato siempre muy humanizado entre todos, me he sentido realmente querida y respectada. Toda esta experiencia la llevaré para siempre en lo más profundo de mi corazón.
 
Não esperava encontrar um grupo de fellows e uma comunidade tão generosa quando eu embarquei para o Brasil pela primeira vez faz dois anos. Para ser sincera, tinha um pouco de medo sobre minha recepção por ter chegado tão tarde. Porém, fui recebida with open arms and open minds. Tanto minhas metodologias de pesquisa quanto minhas redes de colegas se desenvolveram graças à oportunidade cedida pelo Mecila. Fico muito feliz quando penso sobre meu tempo como Junior Fellow e sobre as colaborações e trabalhos coletivos que o futuro trará.
 
Há una mesa at Cebrap. E uma sala de trabalho en USP. Um auditório no Cebrap. A meeting room at USP. Hay el espacio vivo de la cafeteria en Cebrap. E os corredores vazios de la USP. Livros para consultar online pelo site do
Iberoamerikanisches Institut. Books to handle physically at the Instituto de Estudos Brasileiros. There is the coordination office in São Paulo. Y el staff remoto desde Cologne y Berlin. Há doctorandos, Junior and Senior Fellows, los pesquisadores principais e associados. Também os distinguished lecturers e las equipas temáticas. Isso é um pouquinho de Mecila. Isso é um pouquinho de São Paulo. E um tantão de generosity, rigor, criatividad, hospitalidade, friendship e, why not?, convivialidad.

collective testimonial
Mecila Archive/Photo by Marina Belisario
São Paulo – Sampa – SP – a city that seems infinite. I came here searching for space to think about my research (and life) differently. SP gave me that. Was it intimidating? Of course! Was it worth it? Even more! Mecila sits well in this city: it is a centre that offers a space to think and dissent with . As an intellectual space Mecila values and encourages different approaches, methodologies, disciplines, life trajectories, languages and projects. This implies there is some level of chaos: a bit is avoidable improving logistics, most of it is the necessary messiness to keep the space open to different engagements. Vamos lá!
 
Coming to São Paulo for work and going to Rio de Janeiro several times for fieldwork has been a personal and professional experience that has enriched me profoundly. The people I met and exchanged experiences with were extremely generous in sharing their time with me, which makes me very grateful for having had the chance to come to Brazil as a Mecila Junior Fellow. However, this experience came at the cost of being away from my family for too long. What felt like a privilege initially became a difficult obligation over the long run. Maybe, the hybrid modes of combining working online and offline developed during the pandemic could help us create more family-friendly models of academic fellowships.
 
Encontros e reencontros: o Mecila foi lugar de convivialidades em diferentes níveis. A casa linda do Cebrap, a ilha verde de Vila Mariana, as árvores longevas e o prédio moderno da USP, a parede infinita de livros do IEB, la Universidad de La Plata… So much space filled with tanta gente boa! O Mecila foi um processo de descoberta constante, aos poucos a imensidão da rede de pesquisadores foi se revelando mais nítida. Acá se puede ver todo: un microcosmos del mundo contemporáneo. Saudade. Nostalgia. Sehnsucht.
 
Although my stay at Mecila in SP lasted only six months and I was not able to participate in the annual meeting, I feel I am an integral part of this one-of-a-kind convivial constellation that we have created. But there is also my personal story entangled within, that will stay with me for my whole life. Between colloquia and
doctors appointments, research and unpredicted need for a nap, commuting to Cebrap and an overwhelming wave of nausea, an uncontrollable urge to enjoy uma coxinha and having to find comfort in torrada, we made it through! Me and my Polish-Brazilian-Berliner-Mecilan baby Junior Fellow. Thank you, dear Mecila colleagues and friends, for all the support, to make my last three months in São Paulo not any less enjoyable!
 

São Paulo como laboratório da convivialidade e desigualdade

Ser parte de Mecila comienza antes de llegar a São Paulo, once there, es como formar parte de una comunidad en constante proceso de reproducción: intelectual, política, afectiva. Hay muchas formas en las que la comunidad se materializa día a día: el café en el Cebrap, la búsqueda de lugares nuevos para almorzar, ir a tomar unas cervezas o cachacinhas por ahí, compartir el gusto por descubrir comidas nuevas (desde el Amazonas a Taiwan!) y tantos, pero tantos, eventos culturales y artísticos que nutren y dan forma a esta experiencia individual, y también colectiva, de formar parte de Mecila.
 
São Paulo é um laboratório da convivialidade e desigualdade. Devido à pandemia, o número de indivíduos sem abrigo e consumidores de substâncias tóxicas aumentou, assim como a desigualdade social. E é impossível fazer vista grossa a essa situação de precariedade. O significado da convivialidade em nossos projetos teve que ser confrontada com o espaço por nós vivido, compartilhado; com os contrastes drásticos da vida urbana em uma metrópole de 20 milhões de habitantes. Também o significado da consciência da classe social tornou-se urgente a repensar, tendo em vista o êxito do presidente Lula em eleições recentes em outubro de 2022. Tem esperança? Tem sim. Eu nunca esquecerei o dia em que vi um jovem homem em condição de rua perto da Praça da República sentado no chão e lendo Durkheim.
 
As I am crossing the bridge from Vila Mariana to the Ibirapuera Park, I follow the gigantic letters written on it: “BRASIL TERRA INDÍGENA”. Watching the impressive ebb and flow of cars below, I ponder how the missing verb gives the phrase a timeless and undefined character. As I look at the obelisk in the distance, I am reminded how I witnessed to its feet an impressive motorcycle caravan celebrating an elderly, unhealthy looking man wanting to get re-elected. It was loud, stinky, and full of exhilarated men. Given the martyr-related inscriptions on the Obelisk, it seemed only consequential for the rally to end there: fascism loves death. If democracy wants to survive, it must learn to love life, disconnect itself from the logic of hypermasculinity and extractivism, and protect the protectors of the land. BRASIL É TERRA INDÍGENA.
 
La comunidad Mecila is an ever-evolving being, com múltiplas estruturas e variadas formas de encuentro. Between the virtual and the face-to-face, hay muchas posibilidades de contato e trocas. Una se va haciendo como miembro de Mecila in participating in the online meetings of the Research Areas o los encuentros presenciales del General Colloquium y el Annual Meeting, como también interaccionando con os working papers, podcasts, assim como os textos do blog ou the Glossary video series. There are many ways to engage with esta grande rede, que no se agota con la estadia temporária en Sāo Paulo. Pero la estadia is a discovery adventure em si mesma…
 
Most of us were living in a semi-touristic environment, moving like urban nomads from one temporary residence to another, escaping from noisy construction sites in the neighborhood and looking for places that weren’t too cold and neither too gray during the long and rainy winter days of São Paulo. But since not so many tourists stay here for more than a few days, when I had successfully acquired my CPF number, my RNM and my bilhete único, I considered myself entitled to share the city «locally» with its other residents through the weak, but persistent ties of its daily infrastructures.
 
São Paulo is not a very popular city among Brazilians. Most Brazilians, whether paulistano or otherwise, tell me that São Paulo é uma cidade difícil. When I lived here for the first time in 2018, I did not share that experience. But this time I definitely had my moments of frustration with the city – the traffic, the pace, the bureaucracy. Even so, I have a certain fondness for its skyscrapers, its street art, its chaos. I feel more connected to locals having a complicated relationship with SP, and will miss its charms once I’m gone.
 
collaborative testimonial
Mecila Archive/Photo by Marina Belisario
The constant noise and the overwhelming urban landscape are some of my issues with the city. I feel like I cannot remember what silence is anymore. São Paulo definitely has a way of making itself present in your body and mind. However, having the experience of living in one of the largest cities in South America has taught me much about living together, convivialidade, about Brazil, and about myself. It’s been a remarkable experience which I’ll certainly never forget.
 
Confesso que eu tinha na cabeça vários estereótipos desta cidade antes de estar nela por nove meses. Em anos anteriores, eu havia passado por ali apenas uns poucos dias e sempre sem entrar no mesmo fluxo dos citadinos. Algumas visitas turísticas aqui e ali, conhecer a Pinacoteca e o Teatro Municipal, passear no Viaduto do Chá e entrar no Largo São Francisco haviam sido algumas das minhas atividades quando estive por aí. Desta vez, nenhum daqueles meus estereótipos acabou sendo a São Paulo que encontrei. Seja por ter acompanhado a bateria feminista do PSOL em um domingo pré-eleições pela Avenida Paulista, seja por conviver com a politização às vistas nos espaços urbanos, seja pelas culinárias diversas que tive oportunidade de provar, São Paulo, por fim, surpreendeu-me. Fecho este momento da vida tendo sido muito feliz aqui. E, então, eis que o maior centro urbano da Capitania da qual também faço parte deixará marcas muito nostálgicas em minha vivência.

Pensando en conjunto

A space to meet and practice conviviality by discussing theory, methodology y otras cositas más. Un momento para compartir el trabajo de investigación en curso y recibir aportes de investigadores das mais variadas experiências e disciplinas. Um ambiente generoso no qual a apreciação e a crítica são exercidas de modo construtivo and insightful. A commitment para encontrarse periodicamente y conocer mais a fundo o trabalho de colegas fellows e doutorandos.
 
Esse lugar comum – que é bastante incomum – funciona como um oásis de saberes, cercado por plantas de várias espécies de animais e vegetais. Um mar de respiro em meio à paisagem gris paulistana; onde se encontra o silêncio dentre a poluição sonora de construções que nunca parecem cessar de modificar a paisagem. Eine Kaffeepause… y ya está! Escrever e pensar colaborativamente ficou mais fácil aqui.
 
Qual seria a receita para um trabalho convivial de escrita e pensamento? Almost fifty years ago Ryszard Kapuscinski upon his visit to Chile during the Cold War wrote:

I spent a long time forcing my way through that underbrush, the exuberance, the façades and the repetitions, the ornamentation and the demagogy, before I reached the person, before I could feel at home among these people and recognize their dramas, their defeats, moods, romanticism, their honour and treason, their loneliness.
(The Soccer War, 1992)

Conviviality in this sense, could be understood as a discipline of sensibility and integrity, intellectual and emotional. It seems that during our time in SP, we have managed to combined both.
 
It is rare indeed to share space, physically and intellectually, with such a group of generous scholars and thinkers in a city like São Paulo. Our casinha branca in Vila Mariana functioned like an oasis, with its greenery and quiet away from the hustle and bustle of the city, while our pilgrimages to USP reminded us of the special academic setting in which we found ourselves. Conviviality is often marked by inequality, as our studies and conversations often suggest, but my experience of Mecila conviviality has been one of few tensions and fewer
inequalities and, instead, one of rich opportunities for growth and friendship.
 
Esse embodiment das convivialidades nos trouxe o que de melhor a academia pode proporcionar. É como havermos vivido na prática alguns dos temas que se intercruzam com as nossas pesquisas sempre em termos muito positivos. O crescimento que tivemos não apenas nos momentos dos eventos acadêmicos como os
General Colloquium e o Annual Meeting, bem como nos contatos diários com os colegas de trabalho irão nos acompanhar para sempre em um local de profundo carinho em nossos corações. Saímos desta experiência com a felicidade que o partilhar a vida e o trabalho com pessoas incríveis nos trouxe.
 
How to feel at home when being uprooted? Uno de los costos de migrar (biográficamente, y también intelectualmente) es que a veces es difícil encontrar certezas. Es especial encontrar un grupo humano académico con la generosidad y el rigor suficientes como para ofrecer certezas en la crítica. Es difícil encontrar un espacio abierto que contenga y abrigue como el Cebrap (y la USP). Es muy gratificante haber sido parte de este proyecto, con sus dificultades y muchas virtudes, especialmente la de seguir preguntándose sobre la posibilidad de vivir juntes en un mundo, y una América Latina, desigual.

Un seminario es un laboratorio común que permite a cada uno de los
participantes articular sus prácticas y sus propios conocimientos. […] [L]os
efectos de producción discursiva que engendra no son más que
tangenciales en relación con la riqueza proliferante y silenciosa de los
viajeros que se detienen un rato en la estación.

(Michel de Certeau, «¿Qué es un seminario?», 1978)

We cannot escape the effects of power: Who speaks and moves when, where, and how? Where are people located in space? How is space structured, and which forms of associating does it facilitate? Who is present, and who is not? Of course, there is no (academic) space free of these questions, but working in a Mecila environment in which these form part of the researchers’ agenda also influences how people relate to each other. Maybe this is why Mecila fosters such a supportive research community, and it would be only consequential to invite more (organic) intellectuals from disadvantaged socio-economic backgrounds into it to yield new perspectives on the conviviality-inequality nexus.

Mecila/ DALL.E

#29

Uma visita ao Museu das Culturas Indígenas de São Paulo: Lembranças, ecos y reflexiones polifónicas

Global Convivial Forum 

Flávia Meireles, Berit Callsen, Mariana Simoni
(Mecila Thematic Research Group 2023)
Passamos uma tarde sendo guiadas/os pelas mestras/es dos saberes e educadores, que nos apresentaram quem faz e como funciona o MCI, visitando suas exposições atuais e sensibilizando-nos sobre os modos de conhecer/viver indígenas que dão vida aquele espaço.

 

Um lugar físico para a Transformação. Inscrever essa Transformação escrevendo-a na faixa pendurada em uma construção de concreto, mas com isso também deslocá-la, impedir sua rigidez, insinuando que ela pode ocorrer em qualquer ponto daquele espaço limitado – demarcado – do Museu das Culturas Indígenas (MCI) convertido em “Tava” – Casa de Transformação.

Em nossa primeira visita cultural, no dia 22 de junho de 2023, e integrando o grupo de todos os Junior e Senior Fellows do Mecila, nós – Flavia Meireles, Berit Callsen e Mariana Simoni, agrupadas como Thematic Research Group –, estivemos no Museu das Culturas Indígenas, prédio vizinho ao Parque Água Branca, na cidade de São Paulo. Importante mencionar que tal visita estava dentro de uma programação mais extensa, com organização de Roberta Hesse, da short-term visit do intelectual equatoriano do povo Palta Ángel Ramírez, vice-reitor de Pesquisa e Extensão da Universidad Intercultural de las Nacionalidades y Pueblos Indígenas Amawtay Wasi (UINPIAW), em Quito (Equador). Ramírez estava conosco nesta visita como uma das diversas atividades que pudemos fazer juntos durante as duas semanas de sua estadia em São Paulo.

O MCI é, sob a perspectiva originária, chamado de Tava, ou Casa de Transformação, como contaram Cristine Takuá e Carlos Papá, dois dos gestores do Museu, em outra ocasião. Passamos essa tarde sendo guiadas/os pelas mestras/es dos saberes e educadores, que nos apresentaram quem faz e como funciona o MCI, visitando suas exposições atuais e sensibilizando-nos sobre os modos de conhecer/viver indígenas que dão vida aquele espaço.

Vale destacar que a gestão do MCI – que no último dia 29 de junho completou um ano de abertura –, é fruto da conquista dos movimentos indígenas (representados pelo Conselho Indígena Aty Mirim) de fomentar, na cidade de São Paulo, o direito ao território e à educação diferenciada através de uma gestão co-indígena. O MCI é, simultaneamente, lugar de acolhimento para indígenas e meio de educação para não-indígenas sobre – e, principalmente, com – os diferentes povos e cosmologias de Aby Ayala. Essa gestão é sediada em equipamento da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, sob administração compartilhada entre o Instituto Maracá e a ACAM Portinari.

A visita começou com uma grande roda de boas-vindas na parte externa do MCI, em meio às intervenções artísticas nos muros e fachadas do prédio, que já nos envolviam com artes, imagens e grafismos de diversas etnias, dando cor, tom e destaque aos saberes indígenas espraiados por toda parte do imóvel, tornado ninho, refúgio e lugar de trocas indígenas. Também tivemos contato com artesanatos vendidos por indígenas que vêm de muitos territórios e têm no MCI um ponto de apoio para suas vendas.

Adentramos o prédio até o sétimo andar, local onde começou a visita guiada. Fomos descendo os andares e nos deparando com diferentes salas e exposições, que eram ativadas pelos mestres/as dos saberes, enriquecendo nossa experiência sensorial, cognitiva e cosmológica sobre as etnias.

A enorme cobra – cobra grande – localizada nesta sala multiuso, sobre a qual as pessoas visitantes eram convidadas a sentar, além de evocar a imagem da transformação em muitas cosmologias indígenas também provocavam de forma muito concreta a mudança da percepção das visitantes, porque as impelia, ainda que brevemente, a se relacionar com o próprio corpo de maneira diferente.

Ygapó terra firme

“Ygapó, do Tupi Antigo ‘Raízes d´Água’, é um ecossistema formado nas mais antigas regiões geológicas da terra, proveniente de milhões de anos para que a flora resistente pudesse enfrentar as condições de contínuas mudanças e um terreno pobre em nutrientes. […] Ygapó terra firme é a metáfora da resistência indígena, que mesmo em constante ameaça externa vem pela coletividade e compartilhamento de saberes tornar possível o vislumbre de uma futura existência.”

Estas frases se retoman del texto explicativo en la entrada de la segunda sala del museo que alberga una exposición del artista y curador Denilson Baniwa. Al entrar en este espacio llama la atención la oscuridad en él. Las paredes son negras, en ellas relucen escrituras, palabras e imágenes escritas y dibujadas con tiza en diferentes lenguas indígenas y en portugués – noticias, reacciones e impresiones dejadas por los visitantes que son iluminadas por pequeñas lámparas.

La mayor fuente de luz proviene de una pantalla grande en el fondo de la sala, en la que se proyectan diferentes vídeoclips de grupos musicales apropiándose de la cultura pop. Al acercarse a la pantalla, se nota una cuenca con agua en el suelo. El agua no está quieta, sino que se mueve debido a un aporte. Esta es la sala del Ygapó. La superficie líquida y dinámica refleja las imágenes de la pantalla, las multiplica, invierte y modifica. Además, el agua transporta el sonido a su profundidad; se vuelve tanto espejo coalescente como espacio de resonancia haciendo que la sala entera devenga en un ecosistema resistente.

El grupo de rap Oz Guarani canta:

“[…] O índio é forte e sobrevive jogado à própria sorte
O índio é forte e sobrevive jogado à própria sorte                                                             
Como pode, sem terra pra morar, sem rio para pescar
O Juruá [não indígena] desmata a mata e mata os M´bya [indígenas]
Mas Wera MC e Oz Guarani
Não cansa de lutar, e seguiremos assim até a morte
O índio é forte […]”

museu das culturas indígenas
museu das culturas indígenas 2
Créditos das imagens: Flávia Meireles

Los/as visitantes-espectadores están buscando su lugar en este espacio del que ya forman parte. Convivir en la diferencia, compartir espacio – en su libro Ideias para adiar o fim do mundo Ailton Krenak lo llama “fricção”, esto es “ser capaz de atrair uns aos outros pelas nossas diferenças, que derivam guiar o nosso roteiro de vida” (Krenak 2020: 33).

La sala del Ygapó cultiva raíces de agua, apela a la capacidad de la convivialidad, invita al diálogo, recordando y haciendo escuchar voces resistentes. En este espacio performativo, las paredes, la pantalla y el agua devienen dispositivos intermédiales de la polifonía.

Pero es el agua como dispositivo fluyente y movido que desprende una mayor dinámica material y una heterogeneidad semántica en este contexto. Así, la cuenca funge no solamente como espejo líquido de la pantalla, sino que, en relación de sinécdoque, puede hacer referencia al acuífero Guarani, una de las más grandes reservas subterráneas de agua dulce del planeta. Localizado en gran parte del territorio brasileiro, el acuífero es amenazado, constantemente, por la acción humana que conduce a la polución del suelo, a la contaminación y a la modificación de la vegetación nativa de la zona. Así, el agua en la sala del Ygapó no solo refleja el canto resistente, sino que lo incorpora y lo adquiere en un gesto de solidaridad existencial. Es este canto líquido que por medio de su materialidad fluida sabe irritar y subvertir también esquemas binarios. La liqui-dación de relaciones dicotómicas como las entre sujeto-objeto, hombre-naturaleza y agua-tierra puede ser uno de sus efectos epistémicos.

No andar seguinte chegamos, sempre guiados pelos mestres/as, a uma sala cujas paredes e teto eram cobertas de barro, dando uma coloração ocre ou de terra vermelha, sob uma penumbra e o chão coberto com ervas e folhas secas, de diferentes odores, perfumando nossa entrada e narinas. A sala, numa primeira vista, parecia um abrigo na floresta. Este espaço também faz parte da exposição “Ygapó – Terra Firme”, do artista Denilson Baniwa e traz para a Tava parte da floresta, dando relevo, cor, dimensão, escuta e olfato à experiência imersiva.

Museu das culturas indígenas 3
Créditos da imagem: Flávia Meireles

Houve convite para que ficássemos descalços, podendo sentir a textura e o barulho das ervas e folhas secas espalhadas pelo chão, como se entrássemos na mata ou numa casa na floresta, com diferentes cheiros e sons. As solas dos nossos pés eram, então, estimuladas por diferentes texturas e sons estalavam do contato delas com as folhas, anunciando por onde íamos e criando uma ambientação sonora coletiva, já que éramos muitos pés descalços na mesma sala. Isso trazia uma espacialização do som e nos dava pistas de por onde nossos colegas iam pelo espaço, produzindo música com os passos nesse ambiente mata-casa-núcleo expositivo. No centro da sala, parte em penumbra, parte visto, um tronco espesso de árvore estava deitado no chão, sugerindo que o utilizássemos como banco, como parceiro de apoio para nossos corpos, como lugar de descanso. Depois de um tempo circulando pelo espaço, numa coreografia sonora, nos sentamos no tronco ou ao redor dele para ouvir as histórias e causos de Natalício, indígena da etnia Guarani Mbya, morador da Terra Indígena (TI) do Jaraguá.

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Créditos da imagem: Flávia Meireles

Transformação no espaço e nos corpos

Nesta casa o fora e o dentro se integram de maneira tão orgânica que por um momento esta distinção parece ficar em suspenso. Por exemplo: “IMAKÃ UG KUHUKÊ” [“Mãe e filha, abrigo para os sonhos em tempos difíceis”], o mural com a imagem de uma mãe e uma bebê onça, da artista pataxó Tamikuã Txihi, que se encontra no pátio do Museu. Aqui a diferença de tamanho entre ambos os animais, mas também a própria posição de seu olhar recíproco – a mãe olha para baixo e a filha olha para cima – já remetem à transformação: o que chama atenção neste mural, além desta simples troca de olhares entre uma onça grande e uma pequena, é o toque entre elas, mais especificamente a ausência de espaço vazio entre seus corpos, que só ocorre no espaço verde entre as pernas dianteiras da onça-mãe. A contiguidade dos desenhos sugere uma continuidade na própria imaginação de quem olha, que automaticamente completa o corpo da onça filhote. Essa integração visual opera destruindo a ideia de tempo que situa a mãe no futuro, uma vez que o corpo da filha de fato não existe autônoma e materialmente sem o corpo da mãe. Ao mesmo tempo, quem olha precisa do corpo da filha para imaginar que o corpo da mãe se encontra no plano de trás, superposto por ele. Em outras palavras: aqui temos uma transformação que se configura simultaneamente no presente, no passado e no futuro. Que se faz ver no espaço. E nos corpos.

Muito mais do que um continente que abarca um conteúdo, um acervo de objetos, este museu parece operar como uma moldura que, antes de mais nada, afirma e inscreve performativamente seu direito de existir na geografia da cidade. Cristine Takuá afirma que o MCI não tem somente acervos, mas sim, pessoas, ressaltando o caráter dinâmico desse espaço como Tava que, a partir da lógica transitória da transformação, se abre para as culturas indígenas em constante movimento, afirmando, portanto, sua própria vida e atualidade.

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Créditos da imagem: Flávia Meireles

Krenak, Ailton (2020): Ideias para adiar o fim do mundo, São Paulo: Companhia das Letras.

#26

Memória, silenciamento, apagamento e identidade na escrita de Lúcia Hiratsuka e Rafaela Kawasaki

Simone Toji (Junior Fellow Mecila)

Sombras III. Arquivo pessoal de Simone Toji.

Sombras I. Arquivo pessoal de Simone Toji.

Um enterro de livros. Uma detenção por se falar outra língua que não o português. Estas são algumas das imagens que as escritoras Lúcia Hiratsuka e Rafaela Kawasaki evocam ao escrever sobre a vivência de famílias de migrantes japoneses e seus descendentes no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial. Para elas, estas imagens não são somente elementos que constroem suas ficções, mas ecoam memórias que de diferentes maneiras habitam suas experiências pessoais e familiares.

Nascidas no Brasil, de avós que emigraram do Japão ainda nas décadas de 1920 e 1930 respectivamente, ambas atribuem um papel central à memória no desenvolvimento de algumas de suas narrativas. Em Os livros de Sayuri (SM, 2008), Lúcia Hiratsuka partiu das reminiscências de sua mãe sobre o momento em que viu os pais enterrando os livros de casa quando era criança. Em Peixes de aquário (Urutau, 2021), Rafaela Kawasaki se voltou aos relatos esparsos de seu avô sobre as proibições a que ficou sujeito durante a Segunda Guerra. Enquanto o primeiro livro foi concebido como narrativa infanto-juvenil, o segundo é considerado um romance histórico. Apesar das diferenças de gênero entre as obras, ao explorar memórias familiares pouco comentadas, as duas autoras trazem à luz histórias há muito tempo silenciadas, que surgem como testemunhos da violência realizada por autoridades e cidadãos brasileiros a inúmeros indivíduos e grupos de origem japonesa nas décadas de 1930 e 1940.

Silenciamento e apagamento

Para Rafaela Kawasaki, constituir seu texto e personagens a partir da memória dos atos repressivos executados pelo governo brasileiro dessa época é poder “falar dos impactos dessa condição de ser estrangeiro em um lugar, no caso no Brasil, e falar também sobre o silenciamento”. Para a autora, sua narrativa é “uma investigação sobre como é ser proibido de falar o seu próprio idioma, ter sua circulação restrita, ter a possibilidade de ter seus bens apreendidos, de ser considerado inimigo num lugar que por um período você estava construindo uma vida. Como era isso para a existência daquelas pessoas?”. Dessa maneira, ela considera que seu trabalho ficcional questiona as falsas ideias de que o Brasil é um país receptivo e hospitaleiro a todos. “A gente tem de tocar nestas feridas para não criar essas falsas ideias, porque essas falsas ideias ajudam a propagar mais xenofobia e mais intolerância. Mas é preciso fazer isso trazendo também os momentos de afeto”.

Nesse sentido também, para Lúcia Hiratsuka, escrever sobre este período não é somente uma forma de denúncia. “Para mim, tem que ter alguma coisa que me emociona, que me toca para começar a criar. A partir daí uma história vai se construindo. No caso de Os livros de Sayuri, tocou primeiro o enterro dos livros. Que imagem forte, me veio a vontade de contar uma história”. Mas, para Hiratsuka, as experiências dos migrantes japoneses e seus descendentes não foram negligenciadas apenas no Brasil. Ela acha que “houve um pouco de apagamento dessa história dos emigrantes no Japão e não parece haver um grande interesse para que os jovens conheçam esta história”. Segundo ela, havia um pensamento no Japão de que os emigrantes fossem considerados “como se tivessem fugido da guerra, como se fossem covardes. Durante as comemorações dos cem anos da imigração, creio que alguns seriados e documentários talvez mudaram um pouco essa ideia. Mas não sei se chamou a atenção dos jovens”.

Ser migrante, ser diferente

A sensibilidade para dar atenção a essas memórias subterrâneas e silenciadas por meio da literatura de ficção emergiu não somente das relações das autoras com seus familiares de ascendência japonesa, mas também da própria vivência delas enquanto migrantes no Japão, ao experimentar a condição de serem consideradas diferentes pelos japoneses. Para Kawasaki, sua percepção de que no Brasil “ainda existem muitas microviolências com a comunidade nipo-brasileira, que vem na forma de piada, de fetichização ou de brincadeiras na pronúncia de palavras” está estreitamente associada à sua experiência de ter passado parte de sua infância e adolescência como dekassegui no Japão. Apesar de às vezes haver uma curiosidade amistosa com relação a brasileiros neste país, ela sente que também há muita violência no dia-a-dia de brasileiros que migram para trabalhar temporariamente por lá. Por pertencer a uma família na qual seu avô japonês casou-se com sua avó brasileira, e seu pai nipo-brasileiro com sua mãe ítalo-brasileira, Rafaela sempre foi considerada alguém diferente pelos japoneses. Nas suas palavras, “eu tenho algo de japonês, mas eu tenho algo de japonês misturado. Um brasileiro dekassegui de aparência não tão nipônica, ele se sobressai como diferente. Nas ruas, a gente sofre muitas situações de violência, tanto de pessoas nas lojas ficarem grudadas na gente, como se a gente fosse roubar, nos seguindo ou alertando outro atendente sobre nossa presença, quanto de crianças jogarem pedra e falarem ‘Volta pro Brasil!’”.

No caso de Hiratsuka, sua experiência no Japão não se remete a episódios tão explícitos de preconceito. Ainda assim, ela também foi surpreendida quando se deparou com a vida por lá. Ao receber uma bolsa de estudos de uma universidade da região de origem de seus pais, ela relata que, “além de conhecer o Japão e ter contato com meus parentes, foi uma oportunidade importante para pensar a minha identidade também. Percebi que eu era muito diferente de uma pessoa da minha idade nascida e crescida no Japão. De início, foi um choque, porque aqui no Brasil me consideravam japonesa. No Japão, você descobre que não é bem assim, você se sente brasileira. Então fica um pouco desse sem-lugar, mas eu achei bom entender melhor essa identidade, principalmente o lado brasileiro”. De maneira semelhante, Kawasaki também questiona o lugar de sua identidade. “Eu não sou japonesa? Eu não sou brasileira? Em que lugar eu estou? Ou eu sou brasileira e japonesa? Qual é a minha identidade?”

 

Sombras III
Uma literatura entre identidades

É justamente no movimento sempre inacabado entre estar consciente destas questões e ir em direção a alguma resposta que ambas as escritoras exercem sua escrita, cada uma produzindo uma presença literária singular. Hiratsuka menciona o seguinte: “À medida que estou fazendo um novo livro, percebo que vou descobrindo mais do Brasil e de mim mesma, dessa identidade que não é só nipo-brasileira, mas também é a minha individualidade”. E ao explorar essa identidade, a autora considera que “quando construo uma narrativa, o cenário pode ser da roça, pode ser do Japão, pode ser a cidade de São Paulo, ou qualquer outro lugar, mas o ponto de partida é sempre uma questão humana, de como a vida é cheia de surpresas. Essas coisas inusitadas que a gente não espera, quando perguntamos se foi o acaso ou um fato do destino, ou um livre arbítrio. O ponto de partida sempre são os sentimentos humanos, de curiosidade, espanto, ciúme… O resto serve como pano de fundo”. Nessa direção, não se sente à vontade quando Os livros de Sayuri é classificado, por exemplo, apenas como obra associada à imigração japonesa ou associado a algum tipo de cota de diversidade, já que percebe seus livros circularem para além de tais rótulos.

De outra parte, é com tranquilidade que Kawasaki considera Peixes de aquário um livro que “entra nesse movimento de busca de identidades históricas e étnicas”, também produzindo uma certa descentralização, pois “apesar da história se passar em São Paulo, ela está num eixo de interior”, tendo sido escrita por uma autora que reside no momento no Paraná. Ademais, Rafaela reconhece que “é um livro que faz parte desse movimento de valorização da escrita pela mulher ­– se não de valorização, pelo menos de uma abertura maior”. Por isso, é também de modo afirmativo que ela reivindica uma identidade brasileira e amarela. “Eu me identifico como uma pessoa brasileira e como uma pessoa amarela. Para quem é mestiça como eu, você pode passar por branca no Brasil, mas você também não é branca e é importante ter consciência dessa raiz étnica. Então para mim, esses dois movimentos, tanto de reafirmação como brasileira, como de afirmação como pessoa amarela, são bastante importantes para a integridade da minha visão de mundo, até como mulher”.

É justamente na diversidade de estilos e experiências pessoais de vida e escrita que autoras brasileiras de legado nipônico estão trazendo para o debate público histórias que estavam “esperando” para ser escritas, conforme, citando Marina Colasanti, observa Hiratsuka: “às vezes a gente espera pela história, mas às vezes a história espera por nós».

Sombras I

Global Convivial Forum 

#27

From South-South Epistemologies to the Reflection on South-East Relations: putting on a decolonial lens

Global Convivial Forum 

Joanna M. Moszczynska (Junior Fellow Mecila)

Mecila/ DALL.E

Global entanglements, Souths within the North included, read through a decolonial lens, provide interesting impulses for transregional studies, such as those dealing with relations between Latin America and Eastern Europe.

 

With the concept of the Global South, a desire emerged to make visible the literary and cultural communication between different geo-cultural peripheries since the end of the nineteenth century. South-South entanglements have been subject to research in critical thought and theory, historical relations, and the study of non-hegemonic and heterodox knowledge production. The Global in the Global South, as observes Sinah Kloß, underlines that “the concept should not be understood as merely geographical classification of the world, but as a reference attending to unequal global power relations, imperialism, and neo-colonialism” (Kloß 2017: 4).

However, the concept has met criticism from scholars who see the Global South as part of the imperial and Eurocentric binaries of East-West and North-South (Levander and Mignolo 2011: 9). From this perspective, the Global South indicates a “conservative return to the older ‘classical’ geopolitical and civilisation models”, neglecting regions and countries that do not neatly fit into either category (Tlostanova 2011: 69). To critically engage with the North/South differentiation, immanent to the concept of the Global South, Tlostanova proposes that we pay particular attention to those areas and places that cannot be easily identified as either North or South but are in between, such as post-Soviet and Eastern European post-socialist states (Tlostanova 2011: 69). Global entanglements, Souths within the North included, read through a decolonial lens, provide interesting impulses for transregional studies; for example, those that deal with relations between Latin America and Eastern Europe. Just like “South”, the notion of “East” carries a series of epistemological challenges that both comparative and transregional research can profit from.

Latin America (and the Caribbean) and Eastern Europe are two geopolitical areas that have been under economic, cultural, political as well as military pressure from the imperial powers, with whom they had to negotiate their national projects and visions of the future. The stigma of the (semi-) periphery bound by the postcolonial and post-socialist consciousness and the contested ideas of “the invention of the region”, in Anderson’s terms, that are found in the discourses from and about those regions show how the experience of oppression, marginalisation, and dependency have been crucial for the political and cultural (self-)understanding of those two parts of the world. Bringing together the scholarship on both regions, that is, Latin American Studies and Slavic Studies, should not limit itself to traditional comparative study but also allow searching for transregional and decolonial methodologies. What seems like a challenging task can nevertheless help better understand and map the entangled modern realities and representations of the regions, their spatial and temporal constellations and regimes, that is, their histories, cultures, institutions, trades, political transformations, migration processes, diasporas, negotiations of belonging, etc.

DALL·E 2022-12-06 16.17.39 - old fashioned map of latín america

 

Manuela Boatcă, for example, underlines the ontologically peripheral position of the “forgotten Europe”, one that “has been defined as Eastern Europe and is often still reduced to being an Other within” (Boatcă 2019: 96). The scholar further observes that “Eastern and Southern Europe are often considered lesser Europes and have to be specifically mentioned to be included” and proposes “creolisation of Europe”, that is, “the project […] contingent upon creolising social theory so as to re-inscribe the transnational experiences of regions othered as non-European and non-Western or racialised as non-white – such as the Caribbean – as well as the multiple entanglements between Europe and its colonies into sociological thought” (Boatcă 2019: 96; 108). Of course, “creolisation” does not have to limit itself just to the social sciences nor to “Europe”, but be a transdisciplinary and transregional project. A similar reflection on epistemic violence, yet committed against Latin America and the Caribbean, is provided by Ana Nenadović:

 

In its transition from colony to coloniser, the United States of America monopolised the name ‘America’. The linguistic exclusion of the peoples south of the US border lead to their othering and marginalisation. Donald Trump’s slogan ‘Make America great again’ is perhaps the most recognisable contemporary expression of this neo-colonial and racist monopolisation of the name. Trump’s ‘America’ is, without any doubt, white settler USA (Nenadović 2022).

 

The reflection on the use of language is part of a decolonising project, or, in the words of Madina Tlostanova and Walter Mignolo, a practice of “decolonial border thinking”. Decolonial border thinking enables displacing European modernity and empowers those who have been epistemically disempowered by the theo- and egopolitics of knowledge: “Decolonial border thinking” […] is grounded in the experiences of the colonies and subaltern empires. Consequently, it provides the epistemology that was denied by imperial expansion. […] It also moves away from the postcolonial toward the decolonial, shifting to the geo- and body politics of knowledge” (Tlostanova and Mignolo 2012: 60).

Border thinking emerges from the anti-imperial epistemic responses to the colonial difference, that is, the difference that hegemonic discourse endowed to “other people”. This somehow subaltern position turns into an advantage as it implies the awareness of the “double consciousness” (DuBois 2007), “which is not the case in the world of imperial difference that longs to belong to modernity’s sameness so much that it often erases its own difference” (Tlostanova and Mignolo 2012: 68). The imperial difference then comes in two modulations: external and internal. External is the difference between the Russian Czardom and later Russian Empire to Western empires, whereas internal imperial difference refers to the one among Western capitalist empires. The idea of the imperial difference can also be applied to the Cold War context of the struggle for domination between the US and the USSR, perceived as superpowers and distinct areas to be compared only from a modern and imperial epistemological assumption, each one having its own zones of influence, that is, spaces, that belong to the same universe.

Anita Starosta, in her book Form and Instability: Eastern Europe, Literature, Postimperial Difference, elaborates on the notion of postimperial difference as a more accurate account of the condition of Eastern Europe while rejecting the category of Eastern Europe as obsolete and inadequate, at least within the area of literary studies. According to Starosta, the idea of postimperial difference is related to the emergent and overlapping ways of thinking about the region – that is, post-socialism and post-colonialism. This articulation raises the question, “Is the post in post-imperial the post in postcolonial?”* or even, as David Chioni Moore puts it: “Is the Post in Post-Soviet the Post in Postcolonial?” (Moore 2001).

Tlostanova draws attention to the complexity of such questions when she warns against both conflating the post-Soviet with postcolonial discourses and excluding it from them, as this kind of operations either invisibilise the post-Soviet space or strips it of its agency. The solution could be brought by a decolonial method to address the post-Soviet imperial and colonial difference and the ontological othering the post-Soviet has been subject to within the modern system of knowledge. Russia is a paradigmatic case of a “Janus-faced racialized empire which feels itself a colony in the presence of the West and plays the part of a caricature civilizer mimicking European colonization models and missions in its own non-European colonies” (she refers here to Caucasus and Central Asia, but with regard to today’s situation we may think of Russia’s European ex-colonies) (Tlostanova 2015: 47).

The scholarship cited here raises many engaging and thought-provoking issues, although not always directly having both regions, Latin America and Eastern Europe, as a joint case study. They nevertheless engage with the concepts and ideas such as: creolisation, imperial and postimperial difference, colonial difference and post-colonialism, and knowledge production, and thus broaden our perspective and incentivise us to rethink and improve our methodologies and enable us to open for a better historical, geopolitical and cultural understanding of those regions and their states:

According to a rough consensus, the cultures of postcolonial lands are characterized by tensions between the desire for autonomy and a history of dependence, between the desire for autochthony and the fact of hybrid, part-colonial origin, between resistance and complicity, and between imitation (mimicry) and originality. Postcolonial peoples’ passion to escape from their once colonized situations paradoxically gives the ex-colonials disproportionate weight in the recently freed zones. And the danger of retrenchment, or of a neocolonial relation, is ever present (Moore 2001: 112). 

In February 2022, Russia invaded Ukraine, and many Latin American intellectuals have been reluctant to condemn Russia’s war crimes. Maybe putting on a decolonial lens on the gaze upon Eastern Europe could make the above-cited words of Chioni Moore effectively resonate among Latin American minds.


*It is a question inspired by Kwame Anthony Appiah (Appiah 1991).

Appiah, Kwame Anthony (1991):
“Is the Post- in Postmodernism the Post- in
Postcolonial?”, in: Critical Inquiry, 17, 2, 336–357. Boatcă
 
Manuela (2019):
“Forgotten Europe: Rethinking regional entanglements from the Caribbean”, in: Cairo Carou, Heriberto and Breno M. Bringel (eds.), Critical Geopolitics and Regional (Re)configurations.
Interregionalism and Transnationalism between Latin America and Europe. London: Routledge, 69–116.
 
Cairo Carou, Heriberto and Bringel, Breno M. (eds.) (2019):
Critical Geopolitics and Regional (Re)configurations. Interregionalism and Transnationalism between Latin America and Europe. London: Routledge.
 
DuBois, W. E. B. (2007):
The Souls of Black Folk, Oxford: Oxford University Press.
 
Kloß, Sinah Theres (2017): “The Global South as Subversive Practice:
Challenges and Potentials of a Heuristic Concept”, in: The Global South, 11, 2, 1–17.
 
Levander, Caroline and Mignolo, Walter (2011):
“The Global South and World
Dis/Order”, in: The Global South, 5, 1, 1–11.
 
Moore, David Chioni (2001):
“Is the Post- in Postcolonial the Post- in Post-Soviet? Toward a Global Postcolonial Critique”, in: PMLA, 116, 1, 111–128.
 
Nenadović, Ana (2022):
 
Rapping the Decolonisation of America – Rapear la
decolonización de América, in: SOAS History Blog, May 24, 2022, at: blogs.soas.ac.uk.
 
Tlostanova, Madina (2011): “The South of the Poor North: Caucasus Subjectivity and the Complex of Secondary “Australism””, in: The Global
South, 5, 1, 66–84.
 
Tlostanova, Madina (2015):
 
“Can the Post-Soviet Think? On Coloniality of Knowledge, External Imperial and Double Colonial Difference”, in:
Intersections, 1, 2.
 
Tlostanova, Madina and Mignolo, Walter (2012): Learning to Unlearn: Decolonial Reflections from Eurasia and the Americas , Columbus: Ohio State University Press.

#25

Pensar la escuela desde la Convivialidad

Global Convivial Forum 

Osvaldo Barreneche (Associated Investigator Mecila)

Osvaldo Barreneche con el libro Pensar la escuela desde la Convivialidad. Un libro para directores. 

Con la reciente publicación del libro de Inés Fior y Fernando Zullo, Pensar la escuela desde la Convivialidad. Un libro para directores, de la Editorial Autores de Argentina, se obtiene una respuesta concreta a la pregunta que muchas veces, en soledad, nos hacemos: ¿Es que hay alguien, fuera de los especialistas y estudiosos de un tema académico, al que le interese todo lo que hacemos?

Los autores de este libro cuentan con una amplia formación pedagógica y con una experiencia de gestión importante en el ámbito educativo. Fue casi de casualidad, pocos meses antes del inicio de la pandemia, que uno de ellos se enteró de la existencia del MECILA y de los estudios sobre convivialidad y desigualdad en América Latina. Entonces, por cuenta propia, los autores utilizaron todos los recursos disponibles en el sitio web MECILA, a partir del cual profundizaron la bibliografía sobre Convivialidad y la pusieron en diálogo con sus propias elaboraciones conceptuales y con su experiencia profesional.

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El resultado, totalmente inesperado y sorpresivo para el colectivo académico del MECILA, es este libro, fruto de dicho recorrido. Más allá de las consideraciones que se puedan hacer sobre este producto y su contenido, es muy alentador como hecho en sí.

Que los recursos disponibles en nuestro sitio web y sus derivados hayan sido la base para este libro, muestra la importancia del esfuerzo que continuamente se hace para difundir y ampliar el círculo académico específico del proyecto MECILA. Aquí, de manera totalmente independiente y centrado en un tema como el pedagógico, Fior y Zullo nos presentan este resultado, el cual, como se indica en la contratapa de la publicación, propone “como marco interpretativo y de acción el concepto de convivialidad para explorar las formas de comprender, intervenir y mejorar la manera en que suceden las relaciones escolares”.

#24

A Short History of Aquariums: Scientific Curiosity, Aesthethic Delight and Conviviality

Global Convivial Forum 

Ana Carolina Torquato (Junior Fellow Mecila)

Lady with a Japanese Screen and Goldfish, James Cadenhead (1858–1927).

In my research year as a Junior Postdoctoral fellow at Mecila, I have been dealing with the subject of animal captivity as means of entertainment. I am primarily interested in the representation of such establishments as zoos and aquariums in literature to understand better what kinds of thoughts, impressions, feelings, or questionings these “face-to-face moments” arise in the stories I delved into.

In the contemporary world, it is very common to find zoological gardens and aquariums in basically every big city around the globe. Their purpose as institutions which promote human/animal contact as their basic means for entertainment has not changed much since their early formats. However, although zoos and aquariums have similar characteristics, their history is different in situation and time. Whereas zoological gardens date back to earlier forms of private (and royal) animal collections, to menageries, to finally having the layout they have now – a place which displays animals, mostly terrestrial ones, to a wide public – aquariums have a more recent and somewhat multipurposed appearance in history.

A Brief History of the Aquariums

Human beings have a long tradition of keeping fish and other aquatic animals in the surroundings of the home. Naturally, the purpose behind such practice has changed significantly over time. There are signs of humans keeping fish at home as a food supply and an ornament to beautify their living spaces and gardens (Vernon 2001). In my research, I am particularly interested in the latter form of fish keeping, for they show us light into the history of aquariums as objects of aesthetic observation.

 

Although these species seem to have lost part of their ancient charm in contemporary times, one of the most beloved species in the history of fish keeping for ornamental purposes was the goldfish (Brunner 2005). These golden beings may be one of the kick-starters of a tradition that would become a fever in places like China, Japan, and some European countries.

While raising fish in water gardens has been a tradition in many places around the world, the modern idea of domestic conviviality between humans and aquatic animals was first popularized in the mid-nineteenth century with the creation of the at-home aquariums. Since then, the popularity of home aquariums grew fast and gave room to a genuine Age of aquariums: a time when educational interests, aesthetic curiosities, and the domesticity of unconventional pets revolved around one object.

The history of aquariums as we know them today starts with the creation of home aquariums. Such history was shaped by the collective work of many intellectuals and natural historians worldwide. Among these, two of the most frequently mentioned names belonged to two women: Anna Thynne (England, 1806–1866) and Jeanne Villepreux-Power (France, 1794 –1871).

Jeanne Villepreux-Power street in Paris is located in the vicinity of the Parc Zoologique Bois de Vincennes, a true Victorian aquarium kept at the Horniman Museum’s aquarium in London. (Personal archive.)

A true Victorian aquarium kept at the Horniman Museum’s aquarium in London. (Personal Archive.)

Anna Thynne had an important role in the history of aquariums. She became quite well-known for her investigation of madrepores and stone corals and for discovering the recipe of one of the essential rules of the at-home aquariums: how to keep aquatic animals alive (in saltwater) at home (Scott 2003). Anna’s discoveries were considered fundamental for the development of the aquarium in its private and public forms. Her work was praised by Philip Henry Gosse, known as the creator of the public aquarium in its early form in Britain. In 1853, Gosse stocked the Fish House which was annexed to the London Zoo. Allegedly, the name ‘aquarium’ – as opposed to ‘aqua-vivarium’ –  was first used by Philip Henry Gosse in The Aquariums: An Unveiling of the Wonders of the Deep Water (1854).

Jeannette Villepreux-Power was notorious for creating aquariums used mainly for observation purposes. She used aquariums as containers of marine animal life for conducting experimentation with aquatic organisms or studying their anatomy and form. Contrary to Anna Thynne, Villepreux-Power did not believe the home aquarium to be a good way to observe aquatic animals’ behaviour, so to embrace this thinking, she settled in a place where she could have easy access to the ocean. For this reason, most of her independent work was then carried on in Sicily, Italy. Villepreux-Power published a few books about her investigations, such as Observations et expériences physiques sur plusieurs animaux marins et terrestres (1839). Both Thynne and Villepreux-Power lived in a time when women could not attend university, and all that they knew or researched was mainly the result of independent work. Also, for this reason, although their interest in contributing to the history of sciences was genuine, not much of it was publicly credited for their real scientific importance.

The Age of Aquariums

In the nineteenth century, keeping aquariums at home became a fever among Europeans. Among the aquarium-maniacs, you could find naturalists interested in studying aquatic animals from up-close, people who would keep fish at home to use them for their diet, and people who wanted to display the aquarium as an object of prestige and high social status (Granata 2021).

Soon, as they became luxury items, the at-home aquariums became must-have items among the upper classes. Aquariums were particularly popular in Britain, and soon they started to occupy a central place in Victorian living rooms. Their earlier formats were quite simple and often did not promote 360º visibility, one of the qualities of modern fish tanks. However, since they became valuable decorative articles, aquariums started being produced with glass on all sides to guarantee unobstructed observation from any corner of the living room. Aquariums were said to occupy a similar value as television sets in modern houses. This object needed to be displayed in the centre while all the furniture was arranged around it.

The Public Aquariums

Most of the success of the at-home aquariums was due to their multi-purpose use: they were both exciting modes to observe marine life and also objects that promoted aesthetic observation delights and social entertainment. So, as aquariums became a more common trend by the day, they soon called the attention of naturalists/business people that saw their potential to become a similar leisure experience as that of zoological gardens.

Many public aquariums were inaugurated from the mid-nineteenth century onwards: The Fish House at the ZSL London Zoo opened in 1853, the Aquarium of the Jardin Acclimatation and the Vienna Aquarium Salon in 1860, the Hamburg Marine Aquarium Temple in 1864, the Naples Aquarium in 1866, the Berlin Aquarium Unter den Linden in 1869, the Brighton Aquarium in 1872, the Amsterdam Artis Aquarium in 1882, among others.

Some of these public institutions fostered similar qualities as those of the home aquariums since they combined educational values and artistic and aesthetic interests. Some of them were constructed in scenic art nouveau-inspired buildings. These buildings are an example of a tradition that established fine architectural structures in public zoos and aquariums that would continue to exist later. A few examples are Moritz Lehmann’s main portal of the Tierpark Hagenbeck in Hamburg (1907), Lubetkin’s Penguin Pool (1934) at the London Zoo, René-Félix Berger’s Grande Fauverie (1937) at the Jardin des Plantes, the Museu Paraense Emílio Goeldi’s belle époche portal (1883) or even the Quinta da Boa Vista Zoo’s English-style portal.

The quality of associating aesthetic beauty with animal keeping seems to have been elicited from the experience of the observation of aquatic animals. In an article discussing the artistic value of aquarium observation, Nola Semczyszyn considers the subject of environmental aesthetics, specifically around the observation of aquariums as artwork themselves: “Seeing natural objects in art categories can be creative, and “metaphorical seeing” can yield deeper aesthetic appreciation” (Semczyszyn 2013).

This historical trend that possibly started with the rise of nineteenth-century zoological gardens and has achieved its peak in the Age of aquariums, still exists in the present time. Architects of the twenty-first century have been experimenting even more boldly with public aquariums’ format and immersion potential. Now, it seems that the beauty around the observation of aquatic animals not only lies within spectatorship but also in having the feeling of being surrounded by the ocean itself.

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Bernd Brunner (2005): The Ocean at Home: An Illustrated History of the Aquarium, Princeton Architectural Press.

Silvia Granata (2021):  The Victorian Aquarium: Literary Discussions on Nature, Culture, and Science, Manchester University Press.

Nola Semczyszyn (2013): “Public Aquariums and Marine Aesthetics”, in: Contemporary Aesthetics, 11.

Rebecca Stott (2003): Theatres of Glass: The Woman Who Brought the Sea to the City, Short Books.

Vernon N. Kisling (2001): Zoo and Aquarium History: Ancient Animal Collections to Zoological Gardens, CRC Press.

#23

Global Convivial Forum 

“É aquilo que eu vejo, aquilo que eu sinto”: convivialidad en la obra de J. Borges ​

Camila de Oro (Investigadora doctoral de Mecila)
Juan Recchia (Investigador doctoral de Mecila)

 

Estou muito alegre com essa exposição sobre meu trabalho na xilogravura.

Eu ainda quero viver bastante.

O que me inspira é a vida, é a continuação, é o movimento.

(J. Borges)

Del 6 de abril al 7 de agosto se presentó en el Serviço Social da Indústria (SESI) de la Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) de la Av. Paulista de San Pablo una muestra dedicada al mestre da xilogravura: J. Borges y sus grabados. Probablemente uno de los artistas de xilogravuras y tapas de cordel más conocidos dentro y fuera de Brasil. Los diseños de J. Borges han sido altamente difundidos acompañando innumerables obras literarias, en un arco que va desde la literatura de cordel nordestina hasta libros de autores latinoamericanos de gran tirada como Eduardo Galeano.

Cantando Cordel 2016

Cantando cordel, J. Borges, 2016.

La exposición que estuvo recorriendo también otros espacios culturales (SESC-Serviço Social do Comércio) y salas de exposición a nivel nacional está planteada como una celebración de su obra, sin un orden cronológico ni histórico específico. El criterio curatorial propone un acercamiento festivo y sensorial a su trabajo. La exposición está compuesta por: copias y grabados, en su mayoría, realizados entre el 2016 y el 2022; una pequeña muestra de literatura de cordel regionalista nordestina, con tapas y diseños del autor, y una serie de matrices en madera, sobre todo de sus obras más recientes, que abordan el grabado con paletas de colores innovadoras frente a sus clásicos monocromáticos. Acompañan la muestra una serie de materiales paratextuales, audios, fotografías y videos en los que, en primera persona, escuchamos y vemos al autor hablar sobre su propia obra. Entre estos se encuentra el gran boneco con el cual fue homenajeado en el carnaval de Olinda del 2020 por Galo da Madrugada, el mayor bloco de rua del mundo.

Entre las fotografías que lo presentan hay una gigantografía muy particular en la que se ve a J. Borges caminando por una feira de rua o feira livre con su bastón, una camisa colorada y su chapéu característico. El cordelista está fuera de foco y avanza entre los puestos de venta para confundirse con el espacio que recorre, casi como si su figura, en un andar liviano y dinámico, condensara una definición misma del arte del cordel. Tal como nos canta la canción Chão de Estrelas del compositor popular Nelson Gonçalves, citado en los estudios del crítico Mark Curran:

A literatura popular brasileira vem inspirando os nossos bardos na rica produção literária que, como “roupas comuns dependuradas, na corda qual bandeiras desfraldadas, [parecendo] um estranho festival”, enfeitam as feiras de nossas cidades interioranas (Curran 1998: 49).

J. Borges nos dice abiertamente a feira para mim é uma festa y camina despreocupado, con su camisa desabrochada por entre medio de los puestos de compra y venta. En ese andar común entre la feira se mezclan y conviven autor, obra, mercancía, público, arte, fiesta y oficio. Esa colocación tan cotidiana nos lleva a pensar desde dónde la obra se vincula con dos mundos, al parecer inseparables: el mundo del trabajo y el mundo del ocio.

Entre estos dos mundos podemos dividir la mayoría de las obras expuestas en el SESI Av. Paulista. Aquellas que tematizan la ociosidad y las fiestas, como, por ejemplo, Vendendo bolas, dançando e bebendo (2016), No meu tempo de criança (2016), Na minha adolescência (2016); mientras que asociadas al mundo del trabajo encontramos, por ejemplo, las obras Serviços do campo (2016), Viagens a trabalho e negócios (2016), Plantio e corte de cana (2016), Plantio de algodão (2016), A vida na mata (2016). Estos dos agrupamientos responden a la temática dada por sus títulos y en cada obra las escenas parecen jugar en contra de la dicotomía otium/necotium que reina en el contexto de la exhibición: la Av. Paulista, uno de los centros más efervescentes del capitalismo financiero mundial. En ese cruce entre el contexto de exposición y la labor artesanal de J. Borges se desarrolla la curaduría de la muestra, realizada por Ângelo Filizola. La misma pone en escena particularidades que definen la relación entre trabajo y arte. Al decir del propio J. Borges en una cita de la exposición:

Veem meu trabalho como obra de arte, mas para isso acontecer eu tive que enfrentar muitos anos de luta com otimismo e esperança de vencer as dificuldades que me apareciam ao longo dessa trajetória.

Trabajo, entonces, se entiende en la obra de J. Borges como un oficio más de todas las labores que componen el espacio de la feira de rua y que coincide con la manera en que J. Borges se acercó al cordelismo durante su juventud: como un oficio, una fuente de ingreso económico. J. Borges está paseando a la vez que está trabajando y también, por qué no, vendiendo sus trabajos en esas feiras. Tal es como nos lo muestran las representaciones de les trabajadores en cada una de sus obras.

6.- Encuentro con J Borges en Bezerros (noviembre 2013)

Juan Recchia y J. Borges, 2013.

Detalles de las manos de los trabajadores en las gravuras de J. Borges

Cuerpos heterogéneos que, en sus claroscuros, en la diversidad de sus ropas, en sus gestos figuran toda una escenificación del mundo popular, y, sobre todo, de sus relaciones sociales. Las presentaciones de todas estas escenas van más allá de una simple descripción o “fotografía” estática; en estas obras se revive una narratividad muy potente. Movimientos y dinámicas que las posiciones de los cuerpos y de los objetos parecieran estar siempre desarrollando, o, de alguna manera, actualizando frente a nosotres. La propuesta de la curaduría, donde se deja al público tocar las matrices, escuchar la voz del autor y revivir sus obras sensorialmente, nos permite reformular una dimensión convivial: ¿Podemos pensar la obra de J. Borges no solo como una representación regionalista y descriptiva de los elementos “característicos” del nordeste o del sertão? ¿Qué ocurre si en plena metrópolis leemos la exposición desde una dimensión sensorial dentro de un mundo convivial, que se activa cuando estamos frente, escuchamos o tocamos las manos talladas de eses trabajadores?

 

En la feira como en un aleph, en el encuentro de estos mundos ajenos y propios, se habilita la convivialidad. En este espacio, como en la obra de J. Borges, convivimos autores y públicos. En palabras de otro Borges:

Se precisaron todas esas cosas para que nuestras manos se encontraran (Borges 1977: 24).

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Borges, Jorge Luis (1977): “Las causas”, en Historia de la noche, Buenos Aires: Emecé.

Botrel, Jean- François (2006): “Entre material e inmaterial: el patrimonio de cordel” en: Simposio sobre patrimonio inmaterial. La voz y la memoria. Palabras y mensajes en la tradición hispánica, Urueña: Fundación Joaquín Díaz, 122-131. 

Blog con materiales de J. Borges producido por el Memorial de J.Borges & Museu da Xilogravura. 

Cavalcanti Proenca, Iván (1977): A ideología de cordel, Ed. Brasilia/Rio.

Chicote, Gloria (comp.) (2012): “Introducción” en Romancero. Buenos Aires: Colihue.

Curran, Mark (1998): História do Brasil em Cordel. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.

Documental producido por el Centro Cultural do Banco do Brasil de Brasília para la exposición A arte de J. Borges: do cordel á xilogravura (2004). 

Entrevista de divulgación Memorial J. Borges um dos Artistas mais famosos do mundo na Arte da Xilogravura. Canal: Mulher Versátil com Walkiria Diniz. 

Ferreira, Clodo (2006): J.Borges por J.Borges: gravura e cordel do Brasil. Brasilia: Editora da UNB

Portal de Literatura de Cordel del Instituto de Estudos Brasileiros de la USP.

#22

La Constitución y los dilemas de la convivialidad en un Chile desigual

Global Convivial Forum 

Daniela Vicherat Mattar (Leiden University College / Senior Fellow Mecila)

El borrador propuesto para una nueva Constitución implicaba un cambio en los regímenes de convivialidad del país, cambiar los términos en los cuales dicha convivialidad se fundamenta.

«Nosotras y nosotros, el pueblo de Chile, conformado por diversas naciones nos otorgamos libremente esta Constitución, acordada por un proceso participativo, paritario y democrático.»

(Epílogo de la propuesta para una nueva Constitución)

Y, sin embargo, no pasó. A través de uno de los plebiscitos más votados en la historia de Chile, más de 13 millones de personas rechazaron la propuesta para una nueva Constitución el septiembre pasado. En las semanas que han seguido a este evento electoral, en Chile y fuera de Chile, mucha gente se pregunta qué pasó: Cómo es posible que un país que votó abrumadoramente en octubre de 2020 por cambiar la Constitución a través de una asamblea constituyente (78 % del electorado aproximadamente), que eligió como representantes de esta asamblea en su mayoría a gente independiente en mayo de 2021, terminó rechazando el texto propuesto por dicha asamblea con un masivo 62 % del electorado en septiembre de 2022. ¿Qué cambió en este lapso de casi dos años, en que el país ha seguido un proceso de cuestionamiento constitucional que ha sido, por otra parte, impecable y legítimo en términos electorales?

Lo que no se discute tan abiertamente es que la comparación de estos dos momentos electorales –representados en la figura anterior– no es completamente correcta en términos metodológicos. Una gran diferencia marcó ambos momentos: el tipo de voto. En el caso del plebiscito de entrada (octubre de 2020), en el que se definía si era precisa una nueva Constitución y a través de qué mecanismo elaborarla, el voto fue voluntario. En dicha ocasión, de acuerdo con los datos del SERVEL, participaron poco más de 7,5 millones de personas, aproximadamente la mitad del padrón electoral. En cambio, dos años después, en el plebiscito de salida (septiembre de 2022) el voto fue obligatorio, y lo ejercieron más de 13 millones de personas, o sea, más del 87 % del padrón electoral. Cerca de 5 millones de personas que no se habían manifestado electoralmente con anterioridad lo hicieron en el plebiscito de salida, y definieron contundentemente el resultado de la elección.[1]

El problema metodológico de comparar ambos momentos electorales es también un problema político y de legitimidad. Es evidente que en una democracia liberal como la chilena la decisión sobre el texto constitucional concierne a quienes conforman esta particular comunidad política. Sin embargo, los contornos de dicha comunidad se definieron de manera diferente en ambos momentos electorales. El hecho de votar de manera optativa en el plebiscito de entrada y de manera obligatoria en el plebiscito de salida establece términos distintos para lo que uno podría definir como una configuración de la convivialidad política a través del proceso electoral. Es decir, si entendemos una configuración de convivialidad como la forma en que se define una cierta unidad de convivencia, en este caso electoral, es claro que el plebiscito de entrada lo hace en términos de participación voluntaria, de quienes presumiblemente se sienten interpelados en el proceso, en donde el acento se pone en el derecho a votar. Sin embargo, en el plebiscito de salida lo que se enfatiza es el deber de votar, una de las responsabilidades aparejada al ejercicio de ciudanía entre quienes habitan la comunidad política llamada Chile.[2] Dado el resultado electoral, aparentemente estos millones de nuevos votantes estuvieron, en su mayoría, disconformes con el proceso constituyente en general y con su resultado particular: la propuesta para una nueva carta fundamental. La ciudadanía es eso, una danza constante y ambivalente entre derechos y deberes; sin embargo, décadas de neoliberalismo económico y de luchas políticas identitarias han exacerbado la demanda y el reconocimiento de los primeros por sobre los últimos, especialmente en términos individuales. En este sentido, no es extraño que la propuesta constitucional fuera rechazada al percibirse como una amenaza para el ejercicio de las libertades y derechos individuales en el país.[3]

¿Qué hubiese pasado en Chile si en el plebiscito de entrada el voto hubiese sido obligatorio? Dados los resultados del pasado septiembre, no es tan evidente que el resultado hubiese manifestado el deseo compartido de la mayoría por redactar una nueva Constitución. De hecho, estudios de opinión en estos momentos plantean como dos opciones casi igualmente válidas la idea de reformar la actual Constitución y la de redactar una nueva. La pregunta que aún está abierta en este sentido, y lo que es aún problemático, tanto para una política de izquierda como una de derecha, es cómo legitimar la Constitución (actual o nueva) en términos de su poder para definir los contornos de la sociedad que los habitantes de Chile quieren habitar. Es un problema de legitimidad social y política porque ni las mayorías electorales (con sus resultados aparentemente opuestos en 2020 y 2022) ni las manifestaciones populares de descontento social (masivas en 2019, pero permanentes y cada vez más violentas desde hace más de una década) son en sí mismas propuestas normativas sobre las que articular la democracia como forma legítima de convivencia social.[4] Hoy no es claro que haya un consenso sobre qué tipo de orden normativo es necesario, deseado y legitimado para organizar la vida en común.

¿Qué rol juega la desigualdad en todo esto? Una de las mayores ironías de los resultados de la última elección es que el rechazo ganó de manera transversal, no solo, como era evidente, en sectores privilegiados, sino también de manera contundente entre grupos marcados por la marginalidad y la vulnerabilidad socioeconómica, cultural, y ecológica entroncadas en el país. Es decir, la inscripción rayada en varios muros durante las revueltas de octubre de 2019 no pasó de ser más que un deseo, quizás incluso, neoliberal.

El borrador propuesto para una nueva Constitución implicaba un cambio en los regímenes de convivialidad del país, cambiar los términos en los cuales dicha convivialidad se fundamenta. Hasta ahora, la Constitución actual, establecida en 1980 bajo la dictadura de Pinochet, aunque reformada en varias ocasiones durante los gobiernos democráticos, defiende el principio del Estado como un órgano subsidiario de la sociedad, es decir, un Estado que está al servicio de garantizar la libertad de las personas y sus elecciones, y que, al contrario que el Estado social de derecho, no prioriza formas de solidaridad y derechos colectivos como articuladores del orden social (Si bien hay quienes argumentan que subsidiaridad y derechos sociales no son incompatibles).

Instalación de la Conveción Constitucional de Chile en su primera sesión, presidida por Elisa Loncón, efectuada en el edificio del Ex-Congreso nacional de Chile ubicado en Santiago. Cristina Dorador, CC BY 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=107321183.

Dado el resultado del plebiscito de salida, en el que millones que antes se habían abstenido del proceso participaron con su voto, es posible suponer que las casi cinco décadas que han pasado desde el golpe militar, caracterizadas entre otros aspectos por el arraigamiento de una lógica neoliberal como estilo de vida, hayan generado una especie de atrofia social para imaginar que es posible una sociedad donde lo común (representado, por ejemplo, en la figura del Estado social de derecho, la plurinacionalidad o el derecho inalienable al agua) no opaque o medre el desarrollo, las capacidades, la posibilidad de elección o la acción individuales. Es precisamente en esta tensión entre lo individual y lo colectivo donde es necesario negociar cotidianamente la convivialidad. Es también en esa tensión donde se transforma aquello definido como diferente (lo otro, o lo normativamente no-normal) en desigualdad de manera estructural (en términos de desigualdades de género, étnicos, socioeconómicos, corporales, neuronales, etc.).

En este sentido, si bien está claro que hay malestar social, no está claro que este sea un malestar ni con el acuerdo normativo vigente, que presume al individuo como único artífice de su vida, ni que dé pie para generar acuerdos normativos colectivos que transformen el modelo actual.[5] El énfasis en lo colectivo es fundamental, porque es lo que permitiría romper la lógica individualista que sustenta la ideología neoliberal. En otras palabras, para transformar las desiguales estructurales que existen en el país, no es preciso solo establecer formas redistributivas de poder y de recursos, sino también promover una lógica distinta de convivialidad, en la que la solidaridad y el cuidado reemplacen el valor dominante en términos de acceso y reconocimiento individual. El rechazo no ha sido solo un rechazo al borrador de una nueva Constitución. El problema que revela este resultado electoral es también de convivialidad, y de una aparente desconexión entre las necesidades materiales derivadas de las múltiples carencias y desigualdades que se viven en el país (y cómo resolverlas), y de la definición de las normas básicas que legitiman la democracia (y cómo elaborarlas de una manera que trascienda el sistema electoral).[6] Quizás la cuestión más fundamental que está en juego hoy es el tipo de democracia que los habitantes de Chile quieren labrar, y, sobre todo, quiénes se sienten llamados y con deseos de hacerlo.[7] Esta cuestión puede resumirse en una pregunta sobre los principios que articulan la convivialidad en el país: ¿Es posible imaginar otras formas de constituir un orden social y de derechos, en el que la solidaridad y el cuidado sean los principios articuladores y legitimadores de la democracia, y en el que, a su vez, sean esos mismos principios en los que se asiente una concepción de los derechos individuales, y no al revés? La pregunta, no solo en Chile, sigue abierta.

[1] Cabe la pena destacar que, de acuerdo con el SERVEL, la elección del plebiscito de entrada congregó a la mayor cantidad de votantes voluntarios hasta entonces en la historia del país. Es decir, las preguntas sobre la necesidad de cambiar la Constitución, y a través de qué mecanismo hacerlo, concitaron la participación política voluntaria más alta hasta entonces.

[2] La distinción entre el derecho y el deber de votar es interesante pues demarca los términos en que la participación genera ciudadanía, de manera más o menos individualista. En un contexto democrático liberal, el voto voluntario es la epitome de la participación en términos de libertad de elección, mientras que el voto obligatorio combina la participación individual con una obligación colectiva para el mantenimiento de la comunidad política. Por tanto, cómo se ejerce el voto revela la tensión entre derechos individuales y colectivos en la conformación de la comunidad política, y cómo, incluso para el funcionamiento de la democracia electoral, no todos los derechos son individuales. Agradezco los comentarios de Samuel Barbosa que me han ayudado a enfatizar y elaborar mejor este aspecto.

[3] De hecho, al momento de escribir este blog, políticos de derecha han propuesto al gobierno del presidente Borić un numero de cortapisas para la elaboración de la nueva propuesta, enfatizando la necesidad de garantías para la protección de derechos individuales principalmente entendidos en términos de propiedad privada y capacidad de elección de servicios (salud, educación, pensiones), aunque no sobre la capacidad de las mujeres de decidir sobre su propio cuerpo. Ver Juan Manuel Ojeda, “Los ocho principales nudos que entrampan las negociaciones para sellar el acuerdo para redactar una nueva Constitución” (2022).

[4] De hecho, no solo en Chile, la democracia liberal lleva décadas dando señales de inestabilidad y una incapacidad aparentemente estructural para dar cuenta de los desafíos sociales, ecológicos y normativos de las sociedades contemporáneas. Ver Jan Aart Scholte,After Liberal Global Democracy: New Methodology for New Praxis(2019).

[5] El diario El País publicó una nota sobre Petorca, una localidad de sequía crónica, donde también ganó el rechazo pese a que el texto propuesto garantizaba el derecho al agua.

[6] En este sentido, es una constatación empírica de la tensión entre democracia procedimental minimalista y formas de entender la democracia de manera más sustantivamente.

[7] Lo que está claro es que la gran derrota en el plebiscito de salida es de representación y de deliberación democrática, no de participación política.

#21

“We Must Push Back Against Authoritarian Legalism”: An Interview with Prof. William E. Scheuerman

“It’s not old-fashioned dictatorship; it’s somehow a new form of authoritarianism. And I think we have to worry about that.”

Global Convivial Forum 

Gabriel Brito (NDD-Cebrap), Marina Slhessarenko (NDD-Cebrap),
Bianca Tavolari
(Mecila/ Cebrap/ Insper), Joaquim Toledo Jr. (Mecila)

Gabriel Brito, Bianca Tavolari, William Scheuerman and Joaquim Toledo Jr.
Image: Marina Slhessarenko

From August 3-10, Mecila hosted Professor William E. Scheuerman (James H. Rudy Professor, Political Science, Indiana University) for a Short-Term Research Visit, a new academic exchange modality inaugurated in 2022 as part of the Centre’s academic exchange program.

During his stay in Mecila’s São Paulo offices, Prof. Scheuerman attended workshops and meetings with researchers from Mecila and Cebrap’s Law and Democracy Nucleus (NDD), and delivered a Distinguished Lecture on «Politically Motivated Property Damage».

In this interview, Prof. Scheuerman discusses his experience at Mecila and topics that are currently occupying his research interests, including the connection between civil disobedience and politically motivated property, the global crisis of democracy, and the emergence in the United States of a right-wing legal and political thought influenced by interwar conservative German intellectuals.

Scheuerman Convivial Forum 1

Joaquim Toledo Jr.: Can you tell us about the academic activities you’ve been involved in so far in Mecila and how the short-term visit has helped your research?

William Scheuerman: I’ve already been to Cebrap before, which is a famous institution. I’m familiar with many of the people who work here, and I’ve always learned a great deal from them. I think the research here is really important. This was the first time I encountered people from Mecila, and I had a very similar impression. I thought the group of fellows and PhD students are all doing exciting projects. During the second session, I was humbled because I realized how little I know about all the things they’re working on. The projects seem politically timely as well as scholarly significant. I’ve just been very impressed with everything I’ve seen.

Bianca Tavolari: You mentioned you had been to Cebrap before and that it seemed to have been a lifetime ago. What’s the difference between then and now? I’d like you to comment on those two moments.

WS: I was here almost five years ago. Trump had just been elected in the United States. As you know, we no longer have a President Trump, although he’s still active. Bolsonaro had not yet been elected; COVID hadn’t taken place. So yes, it seems like a very different world in some ways. Of course, those things were probably all in the making. But I don’t think you here in Brazil expected Bolsonaro to get elected at that point. And nobody expected COVID.

I’m really enjoying not just the formal discussions, presentations, questions, and so on, but also the chance to catch up with people and hear about their work. That’s at least how it works for me. During a conversation, something might just get dropped, I think about it, and it becomes something. And I think that’s something we did lose during COVID, and it’s just wonderful to have it back.

Gabriel Brito: You now have very practical worries about current social struggles and the state of democracy, especially in the work you presented during your stay. Could you comment briefly on how your work relates to the contemporary political climate?

WS: I like being here so much because I feel very much at home. The people here are also committed to serious scholarship but think that scholarship should matter in the real world. And that’s always been my view. Unfortunately, I don’t think that’s the view of everyone in the academy. Not because they’re bad people, it’s how the academy is structured. I don’t think it always encourages us to address timely political questions in a serious scholarly way.

I stumbled into the issue of civil disobedience. A colleague asked me in 2014 to do a presentation on Edward Snowden in our law school. I initially got interested in these debates about whistleblowing, and that brought me into a broader discussion about civil disobedience. I don’t want to claim to be prescient, but you could certainly see much more attention getting paid to these new protest movements, to these new forms of disobedience in the US and elsewhere.

And then, of course, Trump was elected. That was crucial. I received money to do a project in Germany, but when I got there, I decided to do something very different. I was fortunate that I was allowed to do that. I decided that working on civil disobedience was potentially very important, even if just in terms of sorting out the debate. I saw a lot of confusion there, and I thought it could be at least somehow useful for people worried about these authoritarian trends. There is a direct political link in this project.

Marina Slhessarenko: How do the debates on the crisis of democracy relate to your work on civil disobedience?

WS: There is a danger in speaking about crisis in an overly inflated way. It can also become a dangerous self-fulfilling prophecy. Trump likes to talk about crisis, which is his way of justifying executive rule. That question requires some serious scholarship and discussion. We can argue about how best to define a democratic crisis, but the evidence, it seems, is there. We have authoritarian political leaders. Political parties that previously were not authoritarian have become authoritarian.

The Republican party was the party of Lincoln and abolitionism. Then it took a conservative, yet not authoritarian, turn. But now, it has become a kind of authoritarian cult in some ways. If that is not a crisis, I don’t know what is.

At the same time, history doesn’t repeat itself. I don’t think we’re going to see some dramatic democratic collapse. We don’t see as many coups as we used to, which is a good thing, but we are seeing this democratic erosion or backsliding process, and at some point, that becomes a crisis.

There are many examples of a step backwards in terms of some model of democracy you might have. Hungary, Poland and Turkey still have elections, but they’ve been hollowed out. The press is not free for all kinds of reasons. It’s not an old-fashioned dictatorship; it’s somehow a new form of authoritarianism. So yes, I do think it makes sense to talk about crises. And I think we have to worry about that.

JT: The idea of a crisis of democracy can be like a Rorschach test: how it is seen says a lot about who is looking. You are currently writing on how far-right US think tanks are appropriating conservative views from interwar Germany to denounce the decay of the US republic. What is their version of the crisis of democracy?

WS: The hard right describes the United States as being in a specific kind of crisis. I was looking for academic literature on states of emergency, and the first thing that came up was State of Emergency (2006) by Patrick Buchanan. He is this extremely right-wing, xenophobic politician. It’s about how the United States faces an emergency and how immigration has destroyed the American identity.

You can see different versions of a manipulated type of crisis thinking. Trump talked about crises from his political perspective. The phenomena you’re referring to is very specific, and I was also surprised by it. I’m happy that few American academics and intellectuals were enthusiastic about Trump. That’s partly because the right-wing in the US has been bashing universities. That’s also become part of the political program, which is disturbing.

When I started teaching in the early 1990s, I had many conservative colleagues, often in the “hard sciences”. But that is decreasingly the case because Republicans have committed themselves to climate denialism, among other things. They’re beating up on science. Many of these people would not vote for a conservative today.

Not many people in Academia got on board with Trump, but there was a group of enthusiasts based at the Claremont Institute. It’s a long and complicated story, but in the United States, many people, particularly in political theory, were influenced by Leo Strauss, a pretty complicated thinker. Very conservative, but in an unusual way. His heroes were Plato and Aristotle. He’s not a free market conservative by any means. Maybe a cultural conservative in some sense of the term.

The Claremont Institute is a group of hard-right Straussians on the West Coast. They have been coming up with a romanticized defense of the American founding as having certain moments that connect the US republic to what they call classical natural law. They’ve decided that Trump can be the vehicle for the resurrection of that lost moment which has been under attack. Some of the documents you’ll find on official websites are taken directly from this institute.

They tell this story of the United States, where it has declined since the modern government was formed. They don’t want to roll back the last twenty or thirty years of reform; they want to roll back much more. That’s the group that gravitated towards Trump. Not surprisingly, since there weren’t too many academics he could call on, they ended up being very influential in his government and having a quite important role. The most infamous of all these figures is John Eastman. He was a lawyer who recommended to Trump that he overturn the 2020 election results.

What drove this is the idea that Trump could be the strongman who could save the virtuous core of the republic, and there are echoes of the Weimar Republic here. Conservative reactions to Weimar were about alleged moral degradation. And this is the American right’s story about the American Republic, and they’re looking for a savior. The good news is that there are also followers of Leo Strauss who push back against this.

BT: This interview takes place during an important week for Brazil’s presidential elections. Tomorrow, August 11, there will be a manifesto for democracy in front of the University of São Paulo law school. Meanwhile, some threats from the right here in Brazil have been influenced by the attack on the Capitol on January 6, 2021. How do you see the relationship between these threats to democracy, the rule of law, and renewed interest in the Weimar Republic?

WS: That’s a great question. I don’t have a good answer. I think the reason for the preoccupation with Weimar is because it culminates in National Socialism, which we universally believe was a total disaster. It was such a cataclysm that people had to come back to it.

There is a reason why in the US, and to the extent that American political science has been influential elsewhere, why Weimar is such a preoccupation for better and worse. I think there are some problems with that, which we’ll talk about later. We had so many refugees, and people also had lived through this traumatic experience, were involved in World War II, and were trying to make sense of what happened.

Regarding January 6, I find that interesting. Let’s hope anyone imitating it is as inept as Trump. He thought the Executive was his property, and the United States Attorney General was his personal lawyer. Trump didn’t get the distinction between office and person. This is another way in which he’s authoritarian. It’s almost pre-modern, before you have the modern state and we started distinguishing office from the person. Trump didn’t get the Constitution as a restraint on him.

The good news in the US was that these crucial elites in the military, in the Department of Justice, in the State Department and so on did not go along with this craziness. He had to rely on the kind of people I was talking about, who I hope will be viewed as ridiculous historical figures.

I’m hoping things look similar in Brazil and you have enough people in the military who recognize that a military dictatorship is not even a great thing for the military. They’re the ones who have to take responsibility. You may commit horrible crimes and, at some point, pay for them. I’m also hoping that the US government under President Biden plays a much more positive role than the US government in 1964 when it played a disastrous role, based on my understanding of what happened in this country.

Nobody should try to imitate it, but it could be an inspiration for people sitting in the Brazilian state to resist a president trying to overturn elections. If that’s an inspiration in some way, maybe something positive came out of that terrible day. I’m hoping something positive comes out of it.

MS: The judicial system has played a key role in the crises of democracies. It is expected to contain authoritarian advances, but also co-opting and packing courts with loyalists are two of the main authoritarian strategies. What role does the rule of law play in this crisis?

WS: I have an easy answer and then a hard answer. The easy answer is if anyone thought that the rule of law or constitutional government doesn’t matter, I don’t know where they’ve been the last couple of years. What we’ve been seeing is a frontal assault on the rule of law. Legal institutions and constitutional mechanisms are crudely instrumentalized to undermine the core of what they’re supposed to be about. That’s the ABC of the rule of law: nobody should be above the law. Trump and his followers still don’t understand that, which is terrifying.

Now the more complicated answer, and this speaks to this issue of these people who are advising Trump. One of the things I found fascinating in a kind of perverse way is that they rely on a reified notion of the US Constitution as a pristine document from the past that we shouldn’t touch. We call them originalists. They believe in an original meaning, which they somehow have access to. Constitutional originalism means there were these heroic semi-divine founders who read the classics, and God forbid we touch their masterpiece.

We must push back against these views of the rule of law and constitutional government. I would say that for Trump, the rule of law is what we would call authoritarian legalism, to the extent that you can use the law as an authoritarian mechanism to go after enemies. People in the United States think the rule of law is law and order, more police. One has to have a political battle about that and say, no, that’s not what it is.

We’re in trouble. That is just a reactionary agenda in the deepest sense of the term. We have a tradition of constitutional worship which is very problematic. On the one hand, it does lead people to respect the constitutional government. That’s a good thing, but it does lead or invite this reified understanding of the founders as these great men. That’s a profoundly anti-democratic notion of constitutional government.

Image: Crowd of Trump supporters marching on the US Capitol on 6 January 2021, ultimately leading the building being breached and several deaths by TapTheForwardAssist CC4.0

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Recent works by Prof. William E. Scheuerman:

Good-Bye to Non-Violence?” (2022), Political Research Quarterly (online first), 1-13.

Politically Motivated Property Damage” (2021), The Harvard Review of Philosophy, 28, 89-106.

Civil Disobedience (2018), Polity Press.

#19

"Cachorros mortos": Biopolitics of Human-Animal Conviviality

Global Convivial Forum 

Jörg Dünne (Humboldt Universität zu Berlin / Mecila Senior Fellow 2022)      

Brazilian artist Nuno Ramos’ work exemplifies how biopolitical exclusion enables interspecific conviviality and makes unseen aspects of urban life visible.

Both Eduardo Viveiros de Castro’s anthropological studies on Amerindian perspectivism and Philippe Descola’s Non-Western ontologies claim that the ways of associating human and non-human forms of existence in “animistic” collectives differ fundamentally from those in Western “naturalism”. But are such alternative forms of collectives equally relevant for contemporary urban (and rural) forms of interspecific coexistence? And how can different possibilities of constituting collectives between humans and animals be described, even under the conditions of naturalism and its consequences?

In contrast to animism, where the association of the human and the non-human takes place on the level of interiority, naturalism according to Philippe Descola attributes to humans and animals a common bodily substrate. This can also be described as zoé, in Giorgio Agamben’s terms. “Naked” biological life, according to Agamben, is split off from social life (bios) in the modern Western model of thinking human-animal relations. Around 1800 at the latest, but perhaps earlier, biological life becomes an object of political action. This is the beginning of what Michel Foucault calls “biopolitics”.

Biopolitics is also the starting point of Gabriel Giorgi’s reflections on alternative interspecific forms of coexistence under the conditions of biopolitical regimes. In Formas comunes: animalidad, cultura, biopolítica (2014), Giorgi assumes that such alternative forms of proximity between animals and humans, which are not limited to metaphorical relations of resemblance, are present to a great extent in contemporary art and literature in Latin America. According to Giorgi, however, biopolitical regimes, contrary to what one might expect, do not necessarily contribute to reinforcing the “naturalistic” animal/human distinction but rather draw boundaries that deconstruct the nature/culture distinction from within. Thus, even within the framework of what anthropologists like Descola would call the ontology of naturalism, new alliances of humans and animals can be conceived, which, with regard to the classification of animals, lie beyond the opposition of cultural “domestication” on the one hand and supposedly natural “wildness” on the other:

[L]a oposición ontológica entre humano y animal, que fue una matriz de muchos sueños civilizatorios del humanismo, es reemplazada por la distribución y el juego biopolítico, es decir arbitrario e inestable, entre persona y no-persona, entre vidas reconocibles y legibles socialmente, y vidas opacas al orden jurídico de la comunidad (p. 30).

With Roberto Esposito, Giorgi argues in this context for an “affirmative” understanding of biopolitics, “donde se imaginan y se piensan formas de vida que eludan la complicidad o la colaboración con los regímenes de violencia que dictan esas jerarquías al interior de lo viviente” (p. 27). The question is how such spaces for alternative forms of life can be described and what function art and literature have in this context.

A possible answer to this comes from Jens Andermann in his reflections on contemporary “bio-art” in Latin America. In order to take into account the permeability of the human/animal opposition and, at the same time, the nature/culture distinction, Andermann proposes the notion of the “unspecific” (lo inespecífico), which he understands in a double sense. Just as it makes no sense in the face of modern biopolitical regimes of the living to maintain fixed boundaries between different species and to insist on the demarcation of human life from other forms of the living, so too art must renounce its autonomous differentiation of specific genres or formats, and itself become “unspecific” in a way that combines, for example, bioscientific experimentation and artistic installation. Andermann gives an example of what such a conception of art can look like in the animal labyrinths of the Argentine artist Luis Fernando Benedit, who designed exhibitions in the late 1960s and early 1970s that resembled scientific experimental arrangements with living animals.

Following Andermann, one can describe a “vector de inespecificación” that serves to question existing collectives between human and non-human life forms. However, such an aesthetics of the “unspecific”, which is closely connected to basic ideas of New Materialism regarding the “activity” of matter, possibly gives away the chance to describe historically shaped constellations of certain interspecific relations, e.g. between dogs and humans, on the one hand, and on the other hand certain literary or artistic formats and genre traditions (such as the picaresque), in which this constellation is shaped into scenes of particular conciseness. Therefore, as an alternative to following Andermann into the aesthetics of the “unspecific”, it could be equally promising to deal with the interspecific aspect of human-animal relations and with some quite specific aesthetic and especially literary forms and formats that such relations can assume.

To remain for a moment with artistic explorations of the interspecific relations, I would like to return to a scene of the relationship between people and dogs, as examined in Gabriel Giorgi’s commentary on the work of a Brazilian contemporary artist, namely, Nuno Ramos’ Monólogo para um cachorro morto. This is a performance (and later also an installation artwork in the museum) in which the artist delivers a kind of funeral speech recorded on a tape for a dog that has been run over on a busy street in São Paulo. To play the recording, he goes (not without taking the risk of being run over himself) in situ, i.e. to the street itself, where the dog’s dead body is lying.

By not speaking directly to the dog, however, and instead letting a recorded voice speak to it, Ramos introduces an interruption of the “proximity communication” between two living beings communicating with each other. At the same time, this shift of communication to a repeatable form that can be shared with others (as seen in the exhibition of this performance in the museum installation) may also present animistic features through the invention of a ritual of mourning for a non-human companion.

According to Giorgi, this unusual way of mourning for a dog in Nuno Ramos’ Monólogo mostly makes the common biopolitical treatment of the relationship between life and death visible. Here, a corpse is mourned whose life is not usually deemed worthy of grief under the prevailing biopolitical regime because it is not considered part of a social bios. Another expression of the ungrievability of naked life, where the corpse of the street dog is paradigmatic, is that it is an animal without a name or other individualising features. Usually, such living beings do not leave the sphere of gender-neutrality designed in the English language by the pronoun “it” (instead of “he”/”she” for pet dogs or other domestic animals who have a name, an individual biography, and whose sex is known); neither do they usually have the right to a funeral which also presupposes a name that can be attached to a process of memory. Thus, Ramos’ mourning for a nameless street dog renders this cachorro not only a specified but a specific living being. Therefore, these are primal scenes of interspecific conviviality that, together with other scenes like sharing food, playing together, but also guarding etc., could be considered constitutive of a common history of humans and dogs as “companion species”, in Donna Haraway’s terminology.

As Giorgi’s analysis also points out, not only after its death, but already during its lifetime, the cachorro morto in Ramos’ performance/installation quite obviously lacks a place of its own in the city: “Desde el límite del animal, su presencia espectral y fuera de lugar, sin espacio propio, se ilumina la ciudad como dispositivo de gestión de movimientos, y por lo tanto de relaciones entre cuerpos y entre modos de relación” (p. 236).

Ramos’ Cachorro morto thus encourages us to perceive the ephemeral presence of a huge number of street dogs that inhabit urban space. From the perspective of an observer who has their own more or less fixed place in the city, such an ephemeral presence is expressed, for example, in the choice of a certain designation attributed to these dogs, namely the qualification as cão vadio (Portuguese) or perro vago (Spanish), i.e. as roaming dogs without a fixed place – or, alternatively, in such places for which the French language reserves the term terrain vague, that is, a terrain without a clear shape (from the Latin vagus) or that is empty, unoccupied (vacuus). The indeterminacy of such urban non-places where the cães vadios or perros vagos stay is constituted, as with humans, by the normative expectation of a fixed residence and an accompanying registration at a particular address or with a certain owner. Those who do not meet this expectation become, again, according to Giorgi, an opaque, indeterminate form of life in the biopolitically organised urban spaces – this is also a possible meaning of vagus.

Yet, in line with Giorgi’s thesis, it is precisely these urbanist-biopolitical processes of exclusion that can also potentially lead to new interspecific processes of association; and to the constitution of collectives that affect not only dogs but also people living on the “opaque” side of urban spatial orders. Thus, there seems to be a solidarity of the “placeless”, i.e., unhoused people who live with dogs on the street, sometimes developing such fixed forms of conviviality that often seem more important than being admitted to a homeless shelter, where dogs are not allowed.

Without describing this as a positive model for conviviality in a normative sense, this example shows how de facto biopolitical exclusion processes make interspecific practices of conviviality possible. They thus produce alternative – and quite specific – collectives between humans and dogs in contemporary biopolitical regimes, which create visibility for the forms of urban life that otherwise often remain opaque.

Cover image: Nuno Ramos, Monólogo para um cachorro morto, 2008, 2010.

Note: The following reflections are the slightly revised version of an entry in my research blog Quiltro Chronicles during my fellowship at Mecila in 2022 where I am working on a project on “Street Dogs and Interspecific Convivialities in Latin America”. I would like to thank Joaquim Toledo Jr. for encouraging me to publish it in the Mecila weblog and Puo-An Wu Fu for correcting the text.

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Giorgio Agamben (2003): The Open: Man and Animal, trans. Kevin Attell, Stanford: Stanford University Press.

Jens Andermann (2018): Tierras en trance: Arte y naturaleza después del paisaje, Santiago de Chile: Metales pesados.

Philippe Descola (2005): Par-delà nature et culture, Paris: Gallimard.

Gabriel Giorgi (2014): Formas comunes: animalidad, cultura, biopolítica, Buenos Aires: Eterna Cadencia.

Donna Haraway (2003): The Companion Species Manifesto: Dogs, People, and Significant Otherness, Chicago: Prickly Paradigm Press.

Thiago Köche (2020): O afeto e a rua (documentary), Porto Alegre, 15’.

Nuno Ramos (2008/2010): Monologo para um cachorro morto